Projeto de ensino da língua portuguesa através do futebol foi lançado no último dia 12, em Mazra’a Sharquia

Cerca de 5.000 brasileiros vivem na Palestina na atualidade. A maioria são mulheres com dupla cidadania, que casaram e tiveram filhos com palestinos natos e se mudaram pra lá. A esses descendentes também é assegurado o direito às duas nacionalidades.

O Conselho de Cidadãos Brasileiros na Palestina foi criado em 2012 – e reativado em 2014 após um período parado – para dar assistência a essa população. As funções do grupo, composto por seis brasileiras-palestinas e um conselheiro, são várias. Vão do auxílio em trâmites legais e burocráticos à promoção de atividades de integração.

No último dia 12, na esteira das comemorações do Dia das Crianças, elas lançaram uma nova iniciativa, o “Viva Brasil”, projeto que propõe o ensino da língua portuguesa através do futebol. Já tem 40 crianças inscritas – 15 delas palestinas – e outras 30 na fila de espera.

“Nós começamos a perceber que a comunidade brasileira, apesar de ser muito grande na Palestina, estava perdendo a língua portuguesa”, explicou a presidente do Conselho, Ruayda Rabah, uma das idealizadoras do projeto. “Muitas das mães dessas crianças já vieram há muito tempo pra cá e só usam o árabe dentro de casa”.

As atividades são realizadas duas vezes por semana no campo de um clube de Mazra’a Sharquia, cidade a 13 km de Ramallah, onde fica uma das maiores concentrações de brasileiros na Palestina.

Com a molecada em volta, Ruayda abre os encontros com as lições de português, associando o conteúdo transmitido ao vocabulário do esporte. O responsável pelos treinos com bola é o padre Bessa, que é ex-jogador de futebol e está há cerca de três meses na Palestina como voluntário numa casa de idosos.

Para ele, o mais importante do projeto é reforçar os laços entre os povos. “Ao unir essas duas grandes riquezas do Brasil, o futebol e a língua portuguesa, nós fortalecemos a amizade e o respeito entre brasileiros e palestinos, que já são muito amigos, mas vão se tornar mais ainda”, disse.

Ruayda Rabah e padre Bessa (com a camisa da seleção brasileira) são os responsáveis pelas atividades

Trabalho das mulheres do Conselho beneficia também comunidade brasileiro-palestina com atividades que vão do auxílio em trâmites burocráticos à integração

O “Viva Brasil” já tem 40 crianças inscritas – 15 delas palestinas – e outras 30 numa fila de espera

O “Viva Brasil” tem apoio do Escritório de Representação Brasileira em Ramallah – responsável, entre outros assuntos, pela assistência consular aos cidadãos brasileiros que vivem em áreas de jurisdição palestina.

RECONHECIMENTO DO ELO EUROPEU

O ensino, a preservação e a difusão da língua portuguesa sempre estiveram no centro das ações do Conselho de Cidadãos Brasileiros na Palestina. Em 2018, o grupo criou o “Projeto Identidade”, levando mães e filhos às salas de aula para aprender o idioma.

Através desta iniciativa, foi reconhecido como “aplicador do ensino” pelo Elo Europeu de Educadores de Português como Língua de Herança – organização que, como o nome já diz, atua na mobilização de educadores e instituições que ajudam imigrantes e seus descendentes a preservarem a língua portuguesa.

No final deste mês, entre os dias 24 e 27, Rayda irá a Florença, na Itália, para participar do SEPOHL, simpósio anual promovido pelo Elo para discutir metodologias e projetos colaborativos que possam reforçar esta missão.

“Imagina que tem gente que nos procura para mediar um encontro com um parente que vem de visita”, comenta Rayda, que é historiadora de formação e há 20 anos vive na Palestina com o marido, palestino. “Queremos aprimorar essas relações e trocas culturais, essa comunicação entre os brasileiros-palestinos e seus familiares e amigos no Brasil”.

Iniciativas procuram estimular a troca cultural e a comunicação entre brasileiros-palestinos e seus parentes no Brasil

Segundo ela, há uma aceitação muito grande da comunidade em relação às ações do Conselho, criado inicialmente para intermediar e facilitar o acesso das pessoas ao Escritório de Representação Brasileira em Ramallah. As atividades, no entanto, são prejudicadas pelas dificuldades de sempre, como a escassez de recursos, a falta de estrutura e os empecilhos impostos pela ocupação militar israelense.

O próprio escritório de representação cede suas dependências para que o grupo realize seus trabalhos. “Eles têm nos apoiado muito, e sempre, mas não é o suficiente”, lamenta Ruayda. Sem nenhum tipo de patrocínio, o Conselho tem recorrido a “vaquinhas” na comunidade para financiar os projetos.

“Reconhecimentos com esse do Elo nos motivam muito, além do carinho e do engajamento das pessoas, tanto dos brasileiros-palestinos como dos palestinos. Esperamos poder continuar ajudando, mas precisamos de mais apoio”, comenta.

MUITO ALÉM DA LÍNGUA

Entre as principais atribuições do Conselho, para além dos projetos, estão a orientação aos cidadãos sobre trâmites legais, traduções e o encaminhamento de documentação. Ele é uma via de acesso da comunidade ao Escritório de Representação, que é correspondente à embaixada do Brasil na Palestina.

Suas integrantes também recebe grupos de brasileiros – estudantes, turistas, imprensa – e os auxiliam no que for necessário; ajudam como intérpretes, guias e mediadores com a comunidade e autoridades. “Nós estamos sempre tentando resolver qualquer tipo de problema”, resume Ruayda.

Hoje, há quatro brasileiros-palestinos presos em penitenciárias israelenses; três deles condenados e um aguardando julgamento. Ruayda e seus colegas fazem o possível para prestar assistência às famílias desses detentos. Procuram apoio jurídico, denunciam abusos e até mesmo negociam com as forças da ocupação.

“A gente obriga Israel a praticar o princípio da reciprocidade”, diz ela. “Quem carrega a identidade brasileira precisa ser respeitado como cidadão brasileiro. E nenhum cidadão israelense vai preso no Brasil por atirar uma pedra”.

O comentário é referente a um episódio recente em que o Conselho interviu, em que um menor de idade brasileiro-palestino foi detido por atirar uma pedra durante uma manifestação. Elas encontraram na comunidade alguém que pagasse sua defesa e o menino foi solto.

“Se não tivesse essa ajuda, sabe-se lá o que aconteceria com ele. Porque pra eles não importa. Pelas leis de Israel, não interessa a idade, por atirar uma pedra você pode pegar até 20 anos de prisão”, diz.

Aliviar as dores da ocupação, facilitar a vida das pessoas e integrá-las ao meio em que vivem sem que percam a sua identidade; tudo isso motiva Ruayda a seguir com o seu trabalho. “A gente fica feliz em poder auxiliar os brasileiros que residem aqui, pois eles passam pelas mesmas dificuldades que todo e qualquer palestino passa”.

Conselho presidido por Ruayda Rabah costuma realizar atividades de integração entre a comunidade