Área externa da velha casa da família Othman, em Beit Ur al-Tahta, funciona com um espaço de confraternização para a comunidade (Foto: arquivo pessoal dos autores)

Por Yasser Jamil Fayad, Jamil Abdalla Fayad e Khader Othman

Já era noite em Beit Ur al-Tahta, esse pequeno vilarejo situado a cerca de 12 quilômetros ao oeste de Ramallah, a temperatura já se tornara agradável em contraste com o calor do dia, dando a todos um alívio merecido e uma disposição renovada para caminhar. Nessa época do ano, que compreende a estação da seca, é assim durante as noites – a atividade é mais intensa para aqueles que podem fugir do calor do dia.  Foi caminhando que decidimos nos dirigir à antiga casa da família do nosso anfitrião, local que guarda sentimentos profundos e vários acontecimentos, como o nascimento do próprio tio Khader. A velha residência da família Othman havia sido toda restaurada à sua antiga glória, sendo a única das antigas casas do vilarejo nessa condição. Não se sabe ao certo quantos anos aquela casa possui, contudo estima-se mais de 150 anos, dada a idade dos antepassados que viveram ali.  A casa toda é de pedra ao estilo típico da região, com dois pisos e um grande pátio interno rodeado por muros de pedras. Sua composição é a de um complexo de quartos anexos a uma residência principal e mais antiga. Nessa última, a disposição é também de dois pisos, sendo que o inferior era destinado aos animais (cavalos, vacas, ovelhas, etc.) e, logo acima, o piso em que a família dormia. Essa configuração ajudava a manter aquecido o ambiente durante o inverno, ao mesmo tempo em que protegia os valiosos animais de perigos como os lobos.

Nas noites de hoje, o espaço se transforma no local de encontro dos homens da vila, que usam o grande pátio como um estabelecimento similar a um “café”. Algo que impressiona muito é a luminosidade alta devido à capacidade que as pedras brancas têm de refletir a luz, dando a impressão de ser dia. A atmosfera do ambiente é familiar, pois nessas pequenas vilas palestinas praticamente toda a população se conhece, quando não de uma forma ou de outra, são aparentados.  Assim, ao sentarmos na primeira mesa junto à entrada do corredor de acesso ao pátio, na companhia dos mais velhos – o anfitrião tio Khader Othman, tio Kalil Osman, tio Fauwzi Mustafa El-Mashni e tio Mohammed Mustafa El-Mashni – nos surpreendemos com a quantidade de primos, sobrinhos, netos e toda a espécie de parentes que emergiam durante toda a noite.  Do meu lado, tio Kalil (irmão de tio Khader) prepara a seu modo o narguilé, dispensa ajuda dos funcionários do estabelecimento. Logo reclama do tipo de fumo, argumentando ser inapropriado para um bom paladar, também protesta contra o tipo e a posição da pedra de carvão que, segundo ele, resseca o fumo muito rapidamente, deixando claro que o cliente em questão, além de exigente, é um mestre na arte do narguilé. A fumaça de cheiro adocicado impregna o meio. Como se trata de uma vila islâmica, não existe álcool nas mesas, em compensação o narguilé está presente em praticamente todas.

É possível ver também nas mesas ao lado as pessoas jogando gamão, compenetradas na disputa do jogo e outras esperando o vencedor como próximo oponente.  A bebida consumida em abundância é o chá ou o café árabe, ambos com aromas e sabores próprios da Palestina. O chá é acompanhado por uma erva aromatizante chamada Maramia, que dá um gosto peculiar à bebida habitualmente bastante açucarada. Quanto ao café, o sabor é impregnado por especiarias, que são moídas e misturadas junto para lhe dar essa peculiaridade característica da bebida palestina. O próprio modo de preparo, que não envolve filtração do pó, é também particular em toda a região árabe. O cardamomo é a especiaria mais usada e que mais se sobressai tanto no aroma quanto no sabor e é, de longe, a mais tradicional e amada por aqui.

De repente, um som oriundo do minarete da Mesquita rompe a noite com seu chamado a Salat Isha (última oração do dia) – esse chamamento é conhecido como azâân, trata-se de um som melódico apenas entoado pela voz do muezim. Esse chamamento é o mesmo desde a época do Profeta. Foi Bilal (ex-escravo e Etíope) que subiu na Kaaba, no momento mais importante da história islâmica com o Profeta vivo – a entrada triunfal em Meca – e o entoou.

A conversa flui entre todos, o som do idioma árabe preenche todos os sentidos, parece areia saindo da boca das pessoas, o que é compreensível para uma língua que nasceu no deserto. É cheio de nuances e expressões de significado poético, religioso e amoroso, tem cheiro de zaatar e, na Palestina, gosto de azeite, acredite! De repente, um som oriundo do minarete da Mesquita rompe a noite com seu chamado a Salat Isha (última oração do dia) – esse chamamento é conhecido como azâân, trata-se de um som melódico apenas entoado pela voz do muezim. Esse chamamento é o mesmo desde a época do Profeta. Foi Bilal (ex-escravo e Etíope) que subiu na Kaaba, no momento mais importante da história islâmica com o Profeta vivo – a entrada triunfal em Meca – e o entoou. As pessoas respondem a esse chamado com expressões religiosas, como Allahu Akbar (“Deus é grande”), lā ilāha illā allāh (“Não há outra divindade a não ser Deus”)… mesmo entre os mais jovens, que são a ampla maioria.  Nesse exato momento em que ouvimos toda a beleza do azan,  adentra ao recinto um grupo de jovens que, ao nos verem, dirigem-se respeitosamente com a saudação Salaam Aleikum  (“Que a paz esteja com vocês”),  cumprimento esse típico dos muçulmanos e que remete ao encontro celestial entre os profetas Mohammed e Ibrahim (Abrão) –  que a paz esteja com eles.

O vilarejo está rodeado de Oliveiras, essas árvores centenárias que moldam a paisagem de toda a Palestina, que adentram quintais das casas e que são o símbolo desse povo. Delas se extrai o fruto que serve de alimento fundamental para a culinária, assim como o seu óleo, o azeite,  alimento também indispensável da culinária palestina. Das sobras desse processo de retirada do azeite, o bagaço, saía o antigo combustível para o aquecimento das casas.  Além disso, as árvores mortas servem com suas madeiras aos mais diversos propósitos. Na paisagem árida, desta época do ano, o verde predominante é oriundo dela – a Oliveira – a árvore mãe dos palestinos.

Quanto ao vilarejo, tem sua origem perdida na história milenar da região, não se sabe ao certo quando surgiu. Alguns advogam ter sido um importante ponto de passagem pelas terras palestinas desde muito, contudo ninguém estima menos que 2000 anos e, alguns até 2500 anos de idade. Além disso, se pensarmos que pela pequena dimensão de toda a Palestina, estamos em terras por onde passaram, viveram e/ou estão enterrados figuras como Jesus, Abrão, Moises, Ismael, diversos santos, etc. isso no campo da religiosidade, e não menos no campo da história, pois por aqui passaram personagens e aconteceram episódios significativos para humanidade, o que cria e consolida em todos orgulho e robustos laços com essa terra.

Vilarejo milenar de Beit Ur al-Tahta, a 12 km de Ramallah, tem pouco mais de 4.300 habitantes

É preciso juntar todas as peças desse quebra-cabeça: a casa centenária, o centenário narguilé, o gamão centenário, o milenar chá e café com todo o requinte para adquirirem suas atuais formas, o idioma árabe milenar, o milenar azan, o milenar cultivo da Oliveira, o vilarejo palestino milenar com intensas relações interpessoais, a farta história e religiosidade que saturam toda a Palestina.

Essas peças remetem a uma identidade que se formou há muito e carrega consigo elementos históricos e culturais anteriores à chegada dos árabes, assim como posteriores a esses e que foram absorvidos e incorporados pelos árabes palestinos. O que faz, no fundo, essa rica história própria é gerar uma “face árabe” distinta das demais faces árabes do mundo. Esse povo, em toda a sua longa história, se fez, se refez, se desfez em outros até culminar na sua última grande transfiguração étnica em árabes palestinos, e mesmo esses não deixaram de absorver ao seu modo a história que percorreram até os dias de hoje.

A identidade palestina é parte da resposta a uma questão central da resistência ao processo de colonização sionista, a saber: um povo que sabe “quem é”, que sabe “o seu lugar no mundo” e que tem “raízes profundas nesse lugar” não se desfaz facilmente.

Uma das premissas centrais do colonizador sionista,  como de todas as outras colonizações similares europeias, era a da inferioridade do colonizado, foi assim em África, Ásia e América.  No caso específico da Palestina, os sionistas acreditavam que ao expulsarem os árabes palestinos de suas casas, vilas, cidades, terras, … através do terror e da violência, esses, por sua vez, deixariam de existir em  duas ou três gerações no máximo. Apostavam que os palestinos se transformariam num “árabe genérico”, sem traços próprios, acabando no exílio sob tendas de refugiados ou se “dissolvendo” enquanto identidade no imenso “mar de árabes” que os circundava seja no Líbano, na Síria, no Egito, no Iraque, no Golfo ou na Jordânia. O colonizador sionista, prepotente e incapaz de ver grandeza no outro, cometeu um gigantesco erro de previsão e o que vimos nesses mais de 70 anos desde a Nakba foi a identidade palestina se fortalecer e adquirir contornos claros e definitivos, ante a presença do invasor estrangeiro.

A identidade palestina é parte da resposta a uma questão central da resistência ao processo de colonização sionista, a saber: um povo que sabe “quem é”, que sabe “o seu lugar no mundo” e que tem “raízes profundas nesse lugar” não se desfaz facilmente.

A força que Israel empregou e emprega sobre o povo palestino é imensa, brutal, descomunal, um monstruoso gasto de forças incomparável às outras colonizações do século XX… com o objetivo claro de aniquilar o povo originário. Era esperado por eles, portanto, que o resultado fosse a extinção do árabe palestino, mas a história mostrou a resistência inabalável desse povo. Dá para se dizer mais ainda: os palestinos acabaram por desenvolver uma identidade ligada à resistência distinta dos demais árabes, a ponto de hoje serem os mais politizados e com um elevado grau de escolaridade em relação a toda região.

A prova mais forte dessa resistência inabalável é dada nos campos de refugiados fora da Palestina, as gerações e gerações que se sucedem não veem a si mesmas como “árabes genéricos” ou pertencentes ao país em que se encontram. Todos têm clareza de que são palestinos, clareza de sua identidade, clareza da terra a que pertencem e clareza de que retornarão a ela – Insha’Allah em breve. O povo palestino é o maior entrave ao sonho do colonizador sionista e, dia a dia, na luta de resistência se firma como seu maior pesadelo e será, mais cedo ou mais tarde, seu principal algoz.

Viagem à Palestina – agosto de 2019

Cisjordânia