No próximo dia 28 de abril, quando a 10ª edição do Congresso da FEPAL chegar ao fim, Elayyan Taher Aladdin não será mais o presidente da entidade. Anos após assumir o cargo “quase por acaso”, o advogado de 41 anos, natural de Esteio/RS, passará o bastão.

Não significa que deixará de colaborar com o “trabalho comunitário” – como define a atividade que exerce na Federação. Quer apenas passar mais tempo com a esposa Carolina e com os filhos Taher (6) e Sofia (4) sem ter de se ausentar por causa de viagens e agendas institucionais.

“Considero um compromisso moral de todo descendente palestino contribuir de alguma forma para a causa, seja política, econômica ou culturalmente”, afirma. “Não sei como alguém da nossa comunidade pode dormir tranquilo à noite sem prestar esse tipo de solidariedade”.

Filho de um refugiado palestino e de uma brasileira, Elayyan encara as suas origens como um dever. Para ele, a maneira como o Brasil acolheu seus antepassados – “sem discriminação e com toda a abertura para que crescessem como profissionais” – é uma dívida que deve ser honrada com uma carga extra de gratidão e empenho.

“Como dizia o Arafat, nós temos de ser bons brasileiros para sermos bons palestinos, e nós somos”, completa. “Toda essa situação de injustiça histórica, de perseguição e conflitos nos dá uma responsabilidade ainda maior como cidadãos”.

“Considero um compromisso moral de todo descendente palestino contribuir de alguma forma para a causa, seja política, econômica ou culturalmente”, afirma. “Não sei como alguém da nossa comunidade pode dormir tranquilo à noite sem prestar esse tipo de solidariedade”.

Para homenagear a sua trajetória à frente da Federação, a FEPAL conversou com Elayyan sobre a história de sua família, lembranças do período em que viveu na Palestina, visões do conflito e a integração das comunidades no Brasil, entre outros assuntos.

A jornada familiar

As raízes palestinas de Elayyan estão em Beyt Nabala, vilarejo que foi totalmente destruído durante a criação do estado de Israel, em 1948. “Meus avós foram expulsos de casa com duas filhas pequenas, na promessa de que voltariam em dois, três dias, quando a iminência dos massacres passasse”, relata.

O casal de agricultores do clã (hamule, em árabe) AL-Sharaqa – proprietários de terras que viviam em boas condições antes da ocupação – jamais voltaria. Eles foram deslocados para o campo de refugiados de Jelazone, onde teriam mais nove filhos, entre eles Taher Elayyan Aladdin, pai de Elayyan.

“Meu pai nasceu em 1951 no campo de refugiados, numa dessas tendinhas de plástico”, prossegue. A família inteira passaria praticamente as três décadas seguintes vivendo em imóvel de no máximo 30 m², dormitório/cozinha e banheiro, construído com recursos das Nações Unidas.

O tio-avô de Elayyan, Mahmud, foi o primeiro a tentar a vida no Brasil. Estabeleceu-se no Rio Grande do Sul em meados dos anos 1950. Passou por Sant’Ana do Livramento e São Gabriel até fixar residência em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Como muitos dos imigrantes palestinos naquela época, iniciou como mascate, e prosperou.

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Os avós e os tios palestinos de Elayyan; o pai não está na foto, pois nessa época já estava no Brasil

Quando seu sobrinho completou 18 anos, ele o convidou para ajudá-lo nos negócios. Taher chegou ao Brasil em novembro de 1970 com uma missão: ganhar dinheiro para ajudar a família. “Imediatamente, meu tio deu a ele uma folha com os preços e os nomes das roupas em árabe e português, botou uma mala debaixo do braço dele e disse ‘te vira’”, conta Elayyan aos risos.

O rapaz seguiria os passos do tio. Durante anos vendeu roupas de porta em porta, em vários municípios da região. Em 1972, conseguiu abrir a sua própria loja, a Brasília Modas. O estabelecimento ainda funciona, no município de Sapiranga.

“Imediatamente, meu tio deu a ele (seu pai) uma folha com os preços e os nomes das roupas em árabe e português, botou uma mala debaixo do braço dele e disse ‘te vira’”, conta Elayyan aos risos.

Nesse meio tempo, Taher conheceu Selma, filha de um gaúcho do Alegrete, Aparício Pereira Dorneles, e de Ivone Benites, também de Alegrete. Ela tinha apenas 13 anos. Desconfiado do “turco” e protegendo a inocência da menina, Aparício endureceu. Não chegou a proibir o namoro, mas estipulou que o casal poderia se encontrar apenas uma vez por mês, e sob sua vigília, até que ela tivesse idade para casar.

Taher e Selma se casaram em 1975 e tiveram dois filhos: Elayyan, o primogênito, e Tarek, três anos mais novo.

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Os pais de Elayyan (à direita), ao lado de um casal de amigos, por volta de 1974

 

A vida na Palestina

Em 1979, Taher cumpre seu objetivo e compra uma casa para os pais na Palestina, bem diferente do cubículo em que viviam amontoados. São quatro apartamentos com área total de 800 m², num imóvel localizado nos arredores do próprio campo de Jelazone.

“A maioria dos meus familiares teve uma ascensão econômica e conseguiu se mudar para áreas melhores dentro do próprio campo”, relata Elayyan. “Mas isso é recente, coisa de 20 anos. Durante muitos anos viveram como refugiados, em condições precárias, e depois nessa casa que o pai construiu, que permitiu que todos tivessem uma estrutura melhor”.

Um dos desejos de Taher era que os seus filhos passassem um período na Palestina, para aprender o árabe e os ensinamentos do Islã. Para que se tornassem palestinos. Então em dezembro de 1986, quando Elayyan tinha nove anos e recém acabara a 3ª série, ele, o irmão e a mãe se mudaram para essa casa. O pai ficou cuidando da loja no Brasil.

“Hoje eu considero essa uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida”, afirma.Foi um período de muito aprendizado, de descobertas e de reconhecimento”. Lá, ele conviveu com seus avós, tios e primos, e pode se conectar com a história e a realidade do povo.

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Ano de 2000, em frente à casa da família na Palestina, nos arredores do campo de Jelazone

Fazia muito frio quando chegaram, recorda Elayyan. Mas logo no primeiro dia, sem falar uma palavra em árabe, ele pegou uma bola de futebol e foi com o irmão para a rua. “Encontramos uns guris e já começamos: tu pra lá, tu pra cá. Assumimos o comando, montamos os times e começamos a jogar”.

“Hoje eu considero essa uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida”, afirma Elayyan, sobre o período da infância em que viveu na Palestina.

Foi jogando bola que aprendeu as primeiras palavras em árabe: eu, tu, joga, vai, sobe… O ensino formal iniciou em 1987, em uma escola da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, na sigla em inglês). Os tios, professores, também contribuíram muito na formação dos irmãos.

“Eu aprendi o árabe nessas experiências em escolas das Nações Unidas nos campos de refugiados”, conta orgulhoso. “No tempo livre, eu acompanhava os meus tios em locais inóspitos, acampamentos muito pobres em áreas desérticas, o que servia para eu reforçar o ensino e me integrar às crianças de lá”.

Eclode a Primeira Intifada

A ideia inicial dos pais de Elayyan era que os meninos permanecessem na Palestina até que completassem o ensino médio. Mas as circunstâncias acabariam impendido que o plano fosse adiante.

No final 1987, eclodiu a Primeira Intifada – ou “guerra das pedras” –, revolta popular palestina contra a ocupação israelense. Em Jelazone, um dos principais centros do movimento de resistência, a violência e a repressão se tornaram constantes.

“Nós tínhamos medo”, admite Elayyan. “Toques de recolher viraram rotina, faltava comida e outros suprimentos básicos. Na frente da nossa aldeia tem um dos maiores assentamentos israelenses, o Beit El, e os colonos eram extremamente agressivos”.

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Elayyan criança, acompanhando os pais em manifestação pró-Palestina, nos anos 1980, em Porto Alegre

O exército de Israel reprimia as manifestações com força desproporcional. Crianças e jovens que atacavam tanques de guerra com paus e pedras eram alvejados com balas de ferro revestidas de borracha e tinham, muitas vezes, os ossos quebrados pelos militares. Imagens terríveis dessa prática rodaram o mundo à época.

“Ao mesmo tempo a gente se sentia, mais do que nunca, parte daquele povo”, segue Elayyan. “Como crianças, tínhamos esse sentimento muito forte de que a gente estava sendo vítima daquela opressão, mas é claro que pressionávamos a mãe para voltar. Tínhamos uma realidade construída aqui (no Brasil), queríamos andar de skate, de bicicleta, brincar tranquilamente”, explica.

Quando as escolas na Palestina foram fechadas, entre elas as do campo de Jelazone, Selma percebeu que a situação estava insustentável. Na Páscoa de 1988, ela voltou com os filhos para o Brasil. “Aprendi muito nesse período”, resume Elayyan. “Minha vontade de trabalhar para a comunidade nasceu lá”.

“Como crianças, tínhamos esse sentimento muito forte de que a gente estava sendo vítima daquela opressão, mas é claro que pressionávamos a mãe para voltar. Tínhamos uma realidade construída aqui (no Brasil), queríamos andar de skate, de bicicleta, brincar tranquilamente”, explica.

A história na FEPAL

No início dos anos 1990, adolescente, Elayyan começou a participar de atividades da juventude da FEPAL. Com os colegas do grupo Sanaúd – “voltaremos” em árabe – organizava encontros e acampamentos.

Mas sua história na diretoria começaria a se desenhar em 2003. Voluntário na organização do 8º congresso da entidade, ele foi encarregado como motorista de Hassan Musa Emleh em uma viagem pelo interior do RS. Emleh, falecido em 2018, era o presidente da Federação à época, e uma das principais figuras palestinas no Brasil.

“Em 2004, fui para o congresso despretensiosamente, representando a juventude da Grande Porto Alegre, e saí de lá como segundo vice-presidente da FEPAL”, comenta. “Queria participar desse movimento de integração, mas não tinha a pretensão de assumir um cargo dessa magnitude”, completa.

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Em 2004, com amigos da Juventude Palestina, antes de embarcar para São Paulo, onde iria prestigiar o 8º Congresso da Federação

Elayyan ajudou a implementar um trabalho que está permanentemente em curso: o de reestruturação das comunidades no Brasil. “A partir de 1992, a diáspora acabou desmobilizada até por uma expectativa positiva trazida pelos acordos de Oslo e pela possibilidade de criação do Estado palestino”, explica. “Atuamos para a reaproximar as pessoas dessa causa”.

Em 2007, o então presidente, Farid Suwwan, foi nomeado embaixador palestino na Argentina e teve que renunciar ao cargo. O primeiro vice-presidente também renunciou, e Elayyan assumiu provisoriamente o cargo máximo da entidade. Na 9ª edição do congresso, realizada naquele mesmo ano, Elayyan Taher Aladdin foi oficializado presidente da FEPAL.

“Se a gente vai voltar ou não, essa é outra história. Lutar por esse direito de liberdade e autonomia é uma obrigação de todo palestino”, conclui.

“Meu pai veio pra cá porque ele tinha que sustentar a família dele que estava morrendo de fome, e foi o que ele fez. Eu sou filho de um refugiado, e essa é uma condição para a vida toda. Eu me considero um refugiado, meus filhos vão ser considerados, e os filhos deles também, até que a gente tenha o direito de voltar, livres, para a nossa terra”, diz.

“Se a gente vai voltar ou não, essa é outra história. Lutar por esse direito de liberdade e autonomia é uma obrigação de todo palestino”, conclui.