Mohamad Jehad faz da sua academia em São Leopoldo/RS a extensão de uma sala de aula. Desde 2012, ele promove a cidadania para crianças e adolescentes através do ensino do jiu-jitsu, modalidade que pratica há mais de duas décadas.

No projeto intitulado Lutador Cidadão, o policial civil de 46 anos, descendente de palestinos, atende 90 jovens no município da Região Metropolitana de Porto Alegre. Ele trouxe a ideia dos Emirados Árabes Unidos, onde trabalhou durante três anos com jiu-jitsu infantil.

A iniciativa vai muito além do tatame. Os alunos recebem assistência odontológica, atendimento médico e psicológico e auxílios pontuais com roupas, calçados e material escolar. Tudo gratuito. “A gente faz um cinto social na criança”, explica o professor.

Tem até aulas de reforço escolar. “Em 2017, tivemos inglês o ano inteiro. Tem um sargento do exército aqui que é formado em Matemática e ajuda as crianças. Um sobrinho meu é vestibulando em Medicina e ajuda em Química e Biologia”, conta.

Nos exames de faixa, são aplicadas provas de conhecimentos específicos. “A gente trabalha com a meritocracia. Eles têm determinados objetivos para alcançar. Não adianta só mostrar técnicas de luta. Não dá pra querer ser campeão de jiu-jitsu e não saber falar inglês, não saber se comunicar”, diz.

Todas as atividades do Lutador Cidadão – e do Karatê Olímpico, projeto mais recente de Mohamad, que ocorre no mesmo local – são financiadas e conduzidas por meio de parcerias e colaborações do empresariado e da própria comunidade. Os alunos mais velhos da academia são professores voluntários.

Conhecimento para libertar

No último dia 1º, a FEPAL, representada pelo seu presidente, Elayyan Aladdin, esteve na academia para entregar 90 kits escolares aos alunos. Mohamed aproveitou a solenidade – e a presença dos pais – para reforçar os valores que sustentam o projeto. Falou de honra, respeito, empenho e gratidão, mas principalmente da importância do ensino escolar.

“Sempre reforçamos que o conhecimento é libertador, que tem que dar valor para o estudo. A gente fala pra eles que, mesmo que o colégio às vezes seja chato, é isso que nos dá independência e liberdade de escolha. Se com estudo está difícil hoje em dia, imagina sem”, comenta o professor.

Segundo Elayyan, é motivo de muito orgulho para a Federação contribuir com um projeto transformador como o Lutador Cidadão. “Além de ajudar a fazer a diferença na vida desses jovens, mesmo que com uma ação simples, levamos a todos a mensagem de solidariedade da comunidade palestina”, diz.

Orgulho palestino

Para meninas e meninos atentos, Mohamed também contou um pouco da jornada da sua família. Da boa recepção que seu pai – refugiado – teve no Brasil e das duras condições enfrentadas na Palestina tanto hoje como no passado.

O orgulho de suas origens é evidente, está inscrito no patch da academia: uma fusão entre as bandeiras brasileira e palestina. “Tem que mostrar que uma árvore forte tem que ter uma raiz forte”, alude o professor.

O projeto, diz, é uma forma de retribuir esse acolhimento, e de levar um lado pouco divulgado da Palestina no país. “Tem outras coisas além das questões políticas. A cultura e o esporte, por exemplo. Eu acho que o trabalho que a gente faz aqui eleva a comunidade de um modo geral”.

Atualmente, o professor contribui ainda com a criação da Federação Palestina de Jiu-Jitsu. Segundo ele, já há uma diretoria constituída em Ramallah, com conexões com profissionais palestinos espalhados por todo Oriente Médio, nos EUA, na Austrália e outros países.

Com o jiu-jitsu, Mohamad Jehad procura – se não mudar o mundo – pelo menos ajudar a transformar realidades. “Não tem melhor ferramenta social do que o esporte, seja aqui ou em qualquer lugar”, observa. “É a melhor maneira de agregar e fortalecer a personalidade das pessoas”.