Missa de Natal celebrada em uma igreja de Gaza

A origem do cristianismo está intimamente ligada à Palestina. Nascido em Belém, criado em Nazaré e morto em Jerusalém, Jesus Cristo passou a vida pregando os seus ensinamentos na região. Os vestígios de sua presença estão por todo o território palestino – e na fé de uma minoria local estrangulada pelas ocupações militares de Israel.

Para compreender melhor as relações da religião com a terra e os seus povos, conversamos com Hanna Yousef Emile Safieh, um palestino cristão nascido em Jerusalém Ocidental, em 1943. Doutor em Química pela Universidade Católica da Bélgica, ele mora no Brasil desde 1971, quando veio lecionar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Católico praticante, estudioso da história da região, Safieh contribuiu para que registrássemos em tópicos por que a Palestina é tão importante para o cristianismo.

Jesus Cristo é palestino

Segundo os evangelhos canônicos de Lucas e Mateus, Jesus Cristo nasceu em Belém, cidade palestina localizada a 10 km de Jerusalém, na parte central da hoje denominada Cisjordânia. Nos relatos, consta que José e Maria deixaram Nazaré rumo à cidade para participar de um recenseamento decretado pelos romanos, império então dominante:

E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz.
E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.
Lucas 2:6,7

Há divergências sobre o local exato do nascimento de Jesus. O historiador britânico J. M. Roberts, em seu Livro de Ouro da História do Mundo, aponta outra versão. Para ele, “pode-se ter relativa segurança de que aconteceu em Nazaré, na Palestina”.

Não se refuta o fato, no entanto, de que Jesus Cristo nasceu em território palestino, e que esse é um dos episódios mais importantes da história das civilizações.

Os vestígios de Cristo

Há inúmeros vestígios da vida de Jesus na Palestina. Um dos principais centros de peregrinação cristã até hoje é a Basílica da Natividade, em Belém. Segundo a tradição católica, a igreja – uma das mais antigas do mundo ainda em uso – foi construída sobre a gruta onde Maria deu à luz o menino.

Basílica da Natividade, em Belém, um dos principais centros de peregrinação cristã da Palestina

“A vida do Cristo é toda ligada à Palestina”, comenta Hanna Safieh. Em Nazaré, há o Poço de Maria; em Jericó, estão as montanhas onde Jesus jejuou por 40 dias, resistindo às tentações do diabo. Na Galileia, Jesus recrutou a maioria de seus discípulos; em Cafarnaum, operou muitos milagres. A Basílica do Santo Sepulcro, erigida onde acredita-se que Cristo foi crucificado, fica na Cidade Velha de Jerusalém.

Algumas dessas cidades, especialmente as localizadas ao norte, na região da Galileia, hoje estão sob ocupação de Israel.

Berço do cristianismo

“Os ensinamentos de Jesus causaram impacto muito maior do que o de outros homens santos de sua época, porque seus seguidores viram-no crucificado e acreditaram que, depois, ele ressuscitou dos mortos”, afirma J. M. Roberts.

O povo palestino, insatisfeito com a rigidez das tradições religiosas da época, passa então a louvar Cristo como o “ungido por Deus”, ou o próprio Deus. Um dos principais missionários desse modelo de cristianismo – nunca admitido pelos sionistas – é o apóstolo Paulo.

Paulo escrevendo suas epístolas, obra do pintor francês Valentin de Boulogne

Desde a Idade Antiga, Palestina é o nome dado à região do Oriente Próximo localizada ao sul do Líbano e a nordeste da Península do Sinai, entre o Mar Mediterrâneo e o Vale do Rio Jordão. É a Canaã bíblica, onde se falava o aramaico, língua até hoje utilizada pelas vertentes mais ortodoxas da Igreja Católica, como a Siríaca.

“A Palestina é a terra dos cananeus. Cristo é um cananeu. O cristianismo nasce na Palestina com Cristo e seus fiéis. Em 638, a população era predominantemente cristã, quando a região é dominada pelos árabes e, em um processo natural da História, muitos se convertem à religião da elite dominante”, explica Safieh.

Cristo no Islã

A expansão do islamismo no século VII é registrada historicamente como um movimento tolerante em relação a diferentes tribos e credos. “Os árabes muçulmanos sempre respeitaram cristãos e judeus. O profeta Mohammad (Maomé) não deu ordem para que se convertesse os povos. Pelo contrário, mandou que os respeitassem”, diz Hanna.

Para os muçulmanos, Jesus é o profeta da mensagem divina final (e como a humanidade não a seguiu, Maomé é enviado para reafirmá-la). Seu nome é mencionado com frequência no Alcorão, assim como o de Maria. O Islamismo, no entanto, não o considera uma divindade, porque, segundo o tawhid, não há outra divindade senão o próprio Deus: Alá.

“Os cristãos na Palestina, e em todo o Oriente Médio, são cristãos muçulmanos. E os muçulmanos são cristãos. A convivência do povo sempre foi tão próxima que as tradições, o modo de viver e a cultura foram assimiladas. Nossa maneira de pensar é muito próxima da dos nossos irmãos muçulmanos”, compara Hanna.

O Natal na Palestina

Embora os muçulmanos não comemorem o Natal, é comum que eles se juntem às celebrações nessa data. Muitos costumam frequentar as missas da época e compartilhar a ceia com amigos cristãos. As autoridades palestinas também prestigiam as solenidades oficiais do cristianismo na região.

“Uma das coisas que eu mais sinto saudade de Jerusalém é o convívio entre os muçulmanos e os cristãos. As festas religiosas servem para uma confraternização maior. No Natal e na Páscoa, os amigos muçulmanos vêm festejar em nossas casas e da mesma forma nós, cristãos, participamos das festividades deles”, menciona Hanna.

Praça da Manjedoura, em Belém, nas proximidades da Basílica da Natividade

Em Belém, a Praça da Manjedoura, em frente à Basílica da Natividade, torna-se um grande ponto de encontro da comunidade palestina. No dia 24 de dezembro, um desfile perpassa a cidade, percorrendo ruas como aquela que, segundo a tradição, os três reis magos cruzaram para chegar até o local do nascimento de Jesus.

Os palestinos costumam aproveitar a ocasião também para alertar os turistas – cuja presença é fundamental para a economia da cidade – sobre os abusos da ocupação militar. Israel controla as entradas e as saídas de Belém, que hoje é isolada por um muro que dificulta a locomoção e a subsistência de seus moradores.

Boicote sionista à minoria cristã

Quando Israel se autoproclamou estado, em 1948, os cristãos correspondiam a 20% da população da Palestina, de acordo com estudo da Catholic Near East Welfare Association (CNEWA). Hoje, são apenas 1,2%. Em Jerusalém, no mesmo período, a presença da comunidade passou de 20% para 2%.

Para Hanna Safieh, esses números são resultado de um processo sutil, mas sistemático, de perseguição do governo israelense aos cristãos. “Nunca foi um movimento declarado; eles sufocam a comunidade, complicando de todas as formas a sua vida, ao ponto que as pessoas emigram”, diz. É o que acontece em Belém, que nos últimos 70 anos viu sua população cristã – uma das mais antigas do mundo – cair de 75% para cerca de 30%.

A islamofobia promovida pelos sionistas no mundo também é uma estratégia para retirar da Palestina o “fenômeno cristão”, argumenta Hanna. “Podemos encontrar várias razões para isso, mas umas das principais é que Israel não queria que a comunidade cristã palestina se tornasse um elo com o Cristianismo no Ocidente e, dessa maneira, atrapalhasse os planos sionistas de dominar a Palestina na sua totalidade”, explica.

 

Palestino cristão nascido em Jerusalém, Hanna Safieh veio para o Brasil em 1971 para lecionar na UFRN