Em dez dias na Palestina, jornalista brasileiro pôde constatar estado de permanente vigilância e violação a que o povo é submetido (Foto Maurício Melo)

Em fevereiro deste ano, o jornalista paraibano Maurício Melo passou dez dias na Palestina. Embora breve, sua viagem foi intensa. Ele conversou com moradores, registrou em fotos e vídeos sua expedição pelos territórios ocupados e pôde constatar os efeitos da política de exclusão e opressão promovida pelo Estado de Israel.

Neste relato que a FEPAL reproduz – publicado no final de abril pelo jornal de A União, de João Pessoa (PB) – Maurício fala de resistência e esperança, mas também da dor de uma população que vive sitiada dentro de seu próprio território. “Nunca fui ativista da causa palestina, mas como jornalista de formação e por vocação, sempre defendi ideias progressistas e lutei contra injustiças e desigualdades”, explica.

No texto, ele mostra como o governo israelense não se furta de destruir propriedades e símbolos identitários, de torturar e matar para perseguir palestinos e fazer avançar a construção dos assentamentos ilegais. Ele conta a história de pessoas que tiveram familiares assassinados e foram expulsas de suas terras; cruza checkpoints e atesta o estado de permanente vigilância e violação a que o povo é submetido.

Junto com um grupo de brasileiros, Maurício ficou hospedado na casa de uma família no campo de refugiados de Aida, em Belém, na Cisjordânia. Visitou ainda Jerusalém, Hebron, Ramallah, Nablus, Jericó, entre outras cidades. “O que mais me chocou foi a forma como os palestinos são segregados mesmo administrativamente. A questão da água que não chega todos os dias às casas palestinas é especialmente indignante”, conta.

Maurício trabalha agora na organização de um minidoc e de uma exposição fotográfica sobre a viagem, que devem ser lançados nos próximos meses. A imagem que trouxe consigo, conta, é a de um povo forte e resoluto. “A resiliência, as formas não violentas de protesto e combate são pontos que eu não esperava encontrar num lugar tão massacrado como a Palestina”, diz. 

O texto abaixo é um extrato, publicado no blog pessoal do jornalista, o Nó na Garganta. Para ler o relato na íntegra no jornal A União, clique aqui.

O terror por trás dos muros de Israel

Por Maurício Melo

A jornada pela Palestina foi curta e intensa. Em dez dias andei por quase toda a extensão do país com um grupo de brasileiros que, entre outras coisas, se dispôs a conhecer a realidade que os guias turísticos israelenses não mostram: a realidade do povo administrado pelo Estado de Israel, mas que tem sua identidade negada por ele.

Quando se está do lado israelense dos muros, não é fácil fugir da imagem das cidades novíssimas e com todos os apelos dos centros mais modernos e tecnológicos do mundo; do discurso de respeito às diversidades e respeito às diferenças religiosas. Mas basta atravessar uma das tantas barreiras físicas ou do discurso plantado sistematicamente para se ter um vislumbre do que os sionistas estão promovendo.

Por exemplo, não é segredo que os israelenses querem expulsar os palestinos de suas terras. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez diversas declarações recentemente deixando claro que vai prosseguir com a instalação de colônias no território palestino que será “anexado” como foram as Colinas de Golan, tomadas militarmente da Síria em 1967 a despeito dos protestos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Netanyahu é primeiro ministro de Israel desde 2009 e disse em entrevista nos Estados Unidos que pretende pagar 3.500 dólares para imigrantes africanos deixarem o país. “Israel é dos judeus apenas”, disse. Além disso, o parlamento israelense acaba de aprovar uma lei que prevê a aplicação de pena de morte para condenados por terrorismo.

Jornalista visitou as cidades de Jerusalém, Hebron, Belém e Ramallah, entre outras (Foto: Arquivo pessoal)

Vale ressaltar que por lá crianças que jogam pedras no muro que divide as cidades palestinas são tratados como terroristas. Muitas já são executadas ali mesmo, nas ruas, durante protestos.

Ações assim têm chocado inclusive grupos de judeus como J. Street e Americans for Peaced Now que questionam os métodos e formas como o Estado de Israel tem tratado o povo palestino. Eles comparam essa perseguição à forma como o povo judeu foi expulso e atacado na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas.

Famílias marcadas pela opressão

Tortura e morte – Islam e Ahmad têm seis filhos hoje e vivem num campo de refugiados. Ela deu uma aula de gastronomia típica e ele nos apresentou o lugar. O que só soubemos depois é que aquele risonho casal já havia passado naquele lugar.

Uma noite os soldados chegaram. Eles procuravam o irmão de Ahmad por estar guardando um rifle em casa. Isso aconteceu durante a segunda intifada no ano de 2004, vários jovens se revezavam na segurança do campo contra tropas israelenses. Mohamad era um deles. A arma ficava guardada num dos andares de cima da casa, onde ele estava.

Tentaram impedir a entrada dos soldados, mas o que viram foi a entrada da tropa que já trazia consigo um grande saco. As mulheres mandaram a criança mais velha correr e avisar o tio que fugisse. Mais tarde a pequena contou ter ouvido dele: “hoje seu tio morre”. De fato, os soldados localizaram Mohamad e o executaram.

“Quando um preso morre, seu corpo só é devolvido à família depois do tempo de prisão previsto. As famílias sequer podem velar seus mortos.”

Em seguida trouxeram o corpo para botar no saco e passaram a torturar Ahmad. Tudo isso em frente à esposa, à irmã, às crianças e à mãe idosa. Fizeram ele andar sobre vidro quebrado, quebraram suas costelas e o levaram preso. A partir dali a família ficou marcada como sendo parentes de “terrorista” e passou a ser alvo de frequentes ações dos militares.

Uma das formas de punição das famílias de “criminosos” e “terroristas” é a destruição de suas casas. A casa deles foi bombardeada e a família passou meses morando nas ruínas sem poder receber apoio de outras famílias que temiam represálias. Mesmo um irmão de Islam, que veio tentar ajudar, acabou preso.

O corpo de Mohamad ficou retido (outra punição indireta), algo comum principalmente nas prisões palestinas. Quando um preso morre, seu corpo só é devolvido à família depois do tempo de prisão previsto. As famílias sequer podem velar seus mortos.

Um ano depois, quando a casa já havia sido reerguida com ajuda financeira da ONU, militares metralharam o prédio com a família dentro. Uma das balas atingiu e matou a irmã de Ahmad e Mohamad, que morreu na frente da mãe. Ela, por sua vez, adoeceu ao ver dois de seus filhos serem assassinados e, pouco tempo depois, também morreu. Ela foi retirada com a família de suas terras em 1948 e havia passado a viver como refugiada.

Ahmad ficou com sequelas por causa das torturas que sofreu e, com epilepsia, não conseguiu mais emprego como eletricista. Passou a fazer bicos e a ter problemas financeiros.

Oliveiras arrancadas – o fisioterapeuta e fazendeiro Mustafa Al-Afandi é casado com Dragica e vive no campo de refugiados Deheisheh, em Belém. Sua família conta com seis pessoas e eles têm uma terra de dois hectares ao sudeste da cidade.

Em 2002 a colônia de Efrata foi construída nas proximidades dessa terra, que passou a ser considerada pelo Estado de Israel, perímetro de segurança. Por conta disso, somente entre 2005 e 2015, Mustafa precisou recolocar as cercas e fazer o replantio das oliveiras. A razão disso foi a sucessiva destruição das plantações e cercas.

Em fevereiro de 2018, uma organização doou 60 mudas crescidas de oliveiras para ajudar Mustafa e sua família a manter a terra e ajudar no sustento. Mas, poucos dias depois, todas foram arrancadas e destruídas por colonos e soldados de Israel.

No seu processo de colonização, Israel costuma destruir plantações inteiras de oliveiras, símbolos da identidade palestina (Foto Maurício Melo)

Na Palestina, um país pequeno, a economia está estagnada. Apesar de sua formação, Mustafa não consegue trabalho de fisioterapeuta nem tampouco sobreviver com sua plantação destruída de oliveiras.

O que essas duas famílias têm em comum além das tragédias? Elas têm mulheres muito fortes que, apesar de toda pressão que o machismo exerce e se soma às lutas pela libertação da Palestina, são as responsáveis pela manutenção de suas famílias.

Islam, que também perdeu um irmão e teve outro que perdeu uma perna num confronto com tropas de Israel, comanda um projeto culinário formado por mulheres do campo de Aida, ajudou a criar uma escola para crianças deficientes na comunidade e que também oferece hospedagem. É de onde vem a renda básica da família.

Dragica, esposa de Mustafa, encabeça uma rede de bordadeiras que gera renda para essas mulheres e suas famílias. Além disso, ela montou uma horta no telhado de sua casa e ensina outras mulheres a fazerem o mesmo.

Por morar num campo de refugiados, não há espaço para jardins ou quintais. Outra questão é o manejo da água, que é escassa para palestinos e eles são proibidos de reter água da chuva e, por exemplo, usando calhas. A saída foi levar as plantações para os telhados. Os poços artesianos também são proibidos de serem perfurados na profundidade que se acharia água não salobra.

Dragica (esq.) coordena um projeto de mulheres bordadeiras (Foto Maurício Melo)

Apagamento palestino

A pesquisadora do Grassroots Jerusalem, Amany Khalifa conta que Israel tenta apagar a existência dos palestinos de várias formas. Destruindo prédios históricos, derrubando oliveiras milenares e, inclusive, digitalmente.

“Uma das formas de contar a história dos palestinos e provar sua existência histórica é falar das plantações de oliveiras milenares. Essas árvores são passadas de geração para geração como fonte de renda familiar. Ora, se as famílias têm oliveiras milenares, como poderiam não estar ali durante esse tempo?”, questiona Amany.

“Ao perceber isso, o Estado de Israel passou a derrubar não só as casas, mas também as plantações de oliveira. Algumas árvores com mais de dois mil anos são retiradas e replantadas como troféus nas colônias”, disse a pesquisadora.

Além disso, muitas estradas, pontos comerciais e turísticos estão sumindo dos mapas digitais, como o Google Maps. O que se supõe é que acordos com o Estado de Israel fazem com que cidades deixem de aparecer com marcações nesses mapas e as colônias vêm sendo incluídas.

Estradas históricas já não constam mais nos mapas, inclusive porque foram obstruídas por muralhas, e novas estradas, de uso exclusivo de sionistas, ligam as colônias e passam a integrar os programas e aplicativos. Quando se pesquisa por cidades palestinas no Google Maps, as informações são mínimas, sequer o país a que fazem parte é citado.

Casas e terras

Além das terras perdidas na guerra de 1947 e na Guerra dos seis dias em 1967, muitos palestinos enfrentam problemas com suas propriedades todos os dias. Os motivos são vários. O código de leis de Israel, que é aplicado em toda a Palestina, inviabiliza construções e torna ilegal as que já existem.

Para construir em suas terras, é preciso uma autorização do Estado de Israel. Mas como os sionistas não tem interesse algum de permitir o crescimento da sociedade palestina, essas autorizações demoram anos para chegar ou nunca chegam. Isso torna um grande número de construções ilegais para Israel.

Por conta disso é muito comum que tratores cheguem junto com carros militares para demolir casas habitadas nas cidades palestinas. Na semana posterior a minha passagem por lá, uma escola começou a ser demolida ainda com as crianças dentro. Os soldados resolveram que não podiam esperar nem mais um minuto e algumas crianças tiveram que sair sem sequer pegar o material escolar.

Outro detalhe em relação a isso é que o exército cobra taxas altíssimas pelas demolições e caso a família não pague, pode acabar perdendo a terra onde havia construído. Tudo que o Estado de Israel mais quer. Outra opção é demolir com as próprias mãos e ferramentas, o que acaba acontecendo com as famílias mais pobres que não podem se endividar.

“(…) é muito comum que tratores cheguem junto com carros militares para demolir casas habitadas nas cidades palestinas. Na semana posterior a minha passagem por lá, uma escola começou a ser demolida ainda com as crianças dentro. Os soldados resolveram que não podiam esperar nem mais um minuto e algumas crianças tiveram que sair sem sequer pegar o material escolar.”

Os beduínos, povo milenar e nômade que habita as terras da Cisjordânia, são proibidos de cavar poços profundos, de captar a água da chuva e de construir usando concreto e cimento. Tradicionalmente são pastores de cabras e ovelhas e vivem em tendas.

No entanto, escolas e creches são construídas em lugares estratégicos do deserto para servir vários grupos de beduínos e atualmente usam de estruturas mais fortes para proteger as crianças e equipamentos escolares das intempéries.

E para fazer valer as proibições, as forças militares de Israel usam drones para sobrevoar os desertos e, por várias vezes, flagraram os nômades retirando água de rios ou levantando paredes de concreto. Logo que descobertas, essas paredes são derrubadas por tratores acompanhados por tropas.

Mas a criatividade e a tecnologia ajudam a achar meios e o acampamento que visitei no deserto entre Jerusalém e Jericó. Mohamed, beduíno que nos recebeu, contou que acharam no YouTube uma forma de construir paredes com pneus velhos e terra batida. Além disso, membros de comunidade internacional ajudam com conhecimento e tecnologia para melhor aproveitamento da água e uso da luz solar como fonte de energia.

Escolas e creches são construídas em locais estratégicos no deserto para que as crianças fiquem protegidas (Foto Maurício Melo)