(De O Globo, em 30.jun.2017). Dos gabinetes do presidente da República, Michel Temer, do presidente do Senado, Eunício Oliveira e do ministro da Justiça, Torquato Jardim, chegaram mensagens de cordialidade, mas nenhum deles compareceu ao evento da comunidade islâmica para debater o terrotismo que tem como personagem principal o clérigo Mohsen Araki. Estavam presentes representantes de movimentos sociais por direitos humanos, do Conselho Mundial da Paz e um padre. Brasileiros, persas, árabes e participantes da América Latina. A leitura de trechos do Alcorão deram início ao ciclo de palestras e orações e fizeram com que a plateia de cerca de 300 pessoas ficasse em absoluto silêncio.

— Todo mundo sabe que os americanos patrocinam o Estado Islâmico. O governo dos Estados Unidos exploraram a Arábia Saudita para vender armamentos para a região. O dinheiro gasto para essa compra não é de um único país, mas de todos que moram ali. Há um ladrão pior do que esse, que ainda mata? — discursou o aiatolá iraniano xiita Mohsen Araki. — Ninguém atacou os Estados Unidos, mas toda guerra tem dedo americano. Neutralizem os Estados Unidos e vejam como chega a paz. Todos os problemas podem ser resolvidos, se os americanos não interferirem. Até com a Coreia do Norte. O Brasil é um exemplo na defesa da liberdade religiosa — continuou.

A presença de Araki no Brasil foi alvo de críticas: muitos dizem que ele prega a destruição do Estado de Israel e ódio aos judeus, além de ter ligações com líderes extremistas. A Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) manifestou repúdio à visita do clérigo ao Brasil. A entidade manifestou em um comunicado que “repudia veementemente a vinda a São Paulo do aiatolá xiita iraquiano Mohsen Araki, que em suas pregações conclama à destruição do Estado de Israel”.

Araki, por outro lado, deu explicações que separam as falas consideradas “proféticas”, “sagradas”, do que seria uma política objetiva de extermínio.

— [No Alcorão] encontramos elementos que servem para unificar toda a Humanidade. O que une é a justiça e o bem-estar, essa é a mensagem do Islã. Nós nos encontramos agora diante de um grande perigo que amaça a paz mundial. É o perigo é do domínio do injusto. [O terrorismo] não tem clemência de ninguém, nem pertence a uma sociedade, nem valoriza a raça humana, em nenhum lugar do mundo. O [Estado Islâmico] não gostaria de um povo que não esteja sobre seu controle — argumentou.

Manifesto anti-terrorista

No texto que abriu a conferência está: “O terrorismo é uma atitude antiga, e não tem a ver com nossa cultura [islâmica]. Repudiamos esse tipo de atitude. Devemos ter comunidades com o máximo de segurança. Nossos mártires deram prova de amor, carinho, e de boa convivência. A paz é a missão da fé. Não há nada em nossa religião que intercede (…) pela briga”.

Nesse manifesto, fica frisado que “o maior alvo do terrorismo é o Islã e as maiores vítimas dos terroristas são os muçulmanos. O terrorismo suja. Por isso, há inocentes feridos na França, Inglaterra, Iraque ou Líbano. É preciso dar um basta a esse tipo de resultado péssimo. A opinião pública mundial, através das redes sociais e da imprensa, está cada vez mais sujeita à islamofobia”.

— Ao trabalhar para esse encontro, fomos surpreendidos por críticas inapropriadas, mas não perdemos o foco. Há participantes de muitas partes do mundo, chamados para apresentar pontos de vista e estudos relativos à origem de grupos extremistas” — observou o diretor do Centro Islâmico no Brasil, Nasser Khazraji.