É com grande dor e pesar que a diáspora palestino-brasileira recebe a notícia de falecimento de WALDIR PIRES, ex-governador da Bahia, ex-senador e ex-deputado federal, ex-ministro de Estado e um grande amigo do povo palestino. Falecido aos 91 anos, Waldir Pires é homem público destacado na vida política brasileira desde princípios dos 1960. Entre 1963/64 foi consultor geral da República no governo de João Goulart. Com a redemocratização, foi ministro da Previdência (1985/86) no governo José Sarney. Sua desincompatibilização visou permitir que disputasse o governo da Bahia, sendo eleito em 1986. Foi também deputado federal por dois mandatos (1990/94 e 1999/2003) e ministro da Defesa de 2006 a 2007.

Dentre as manifestações de Waldir Pires em favor da Palestino e de seu povo está a busca do empenho do Brasil para que a ONU levasse adiante as investigações dos crimes de lesa humanidade cometidos pelas forças de ocupação israelenses contra a população palestina do campo de refugiados de Jenin, ao norte da chamada Cisjordânia. Isso se deu em 2002, logo após o Massacre de Jenin, como ficou conhecida a matança de refugiados palestinos do campo de refugiados de Jenin.

Tratou-se de indicação da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, que pedia ao então presidente Fernando Henrique Cardoso que “envide esforços junto às Nações Unidas para que a investigação que vinha sendo conduzida sobre os episódios ocorridos em Jenin seja retomada”, assinada por Waldir Pires em conjunto com o também deputado federal Milton Temer.

Os deputados defenderam, ainda, que o Brasil, na condição de “defensor histórico do direito humanitário internacional, não pode omitir-se nesta grave hora.”. E mais: acusaram o governo israelense de suspeito de cometer crimes contra o povo palestino. Diz a indicação, em certa altura, textualmente: “os fatos ocorridos em Jenin parecem ter ido além de excessos eventuais e da truculência usual com que o governo Sharon trata a população palestina. Na realidade, todos os indícios até agora disponíveis tendem a confirmar que houve ação proposital de extermínio de parcela da população do campo de refugiados daquela cidade. O Campo de Refugiados de Jenin, um dos maiores na Palestina ocupada, foi cercado e invadido, em abril de 2002. Durante mais de quatro semanas pessoas foram retiradas de suas casas e executadas, outras assassinadas pela demolição de suas casas enquanto eram nelas retidas, algumas vezes as famílias inteiras, com crianças, velhos e doentes.”.

Waldir Pires e Milton temer fizeram incluir, na indicação, que “de nosso ponto de vista, é essencial que ela seja retomada, de maneira a esclarecer em definitivo os fatos ocorridos em Jenin, bem como em outras localidades da Cisjordânia.”.

O Massacre de Jenin

O Massacre de Jenin, como ficou conhecido e designado pelas organizações humanitárias internacionais e pela imprensa mundial, levou à morte de até 800 pessoas, outras centenas de feridas e mutiladas, além da total devastação do campo de refugiados.

Nas palavras do coordenador especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Terke Roed-Larsen, os horrores em Jenin decorrentes das ações criminosas de Israel eram “além da imaginação”.

Não bastasse, as forças de ocupação de Israel, quando era primeiro-ministro Ariel Sharon, procurado por crimes de guerra contra os refugiados palestinos no Líbano (mais de 3 mil civis desarmados, a maioria mulheres e crianças, além de idosos, foram massacrados nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, levando ao horror a opinião púbica mundial), 20 anos antes, que lhe impuseram a alcunha de “Carniceiro de Beirute”, impediram por duas semanas que a Cruz Vermelha e a ONU, para não falar da imprensa e organizações humanitárias diversas, ingressassem em Jenin. De acordo com testemunhas independentes, eram vistos dezenas de cadáveres abandonados nas ruas, para alguns perto de 150.

Israel impediu, também, o ingresso de alimentos e água portável ao campo de refugiados, ao mesmo tempo em que seus helicópteros de guerra sobrevoavam a região dia e noite e a atacavam indiscriminadamente, destruindo suas infraestruturas sanitárias e de abastecimento. O intuito era claro: matar pela inanição e pela falta de medicamentos e outros insumos que permitissem aos centenas de feridos e mutilados que sobrevisvessem.

Ao final, a comissão da ONU optou por repetir o desequilíbrio quanto a tudo que diga respeito à Palestina e aos crimes de Israel, concluindo por ter havido um “confronto”, minimizando o número de vítimas, e com isso, na prática, equiparando ocupado e ocupante, população civil refugiada e forças bélicas ocupantes.