Por Elayyan Taher Aladdin
Presidente da FEPAL

O massacre nas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, que deixou 49 mortos e pelo menos 48 feridos, é mais uma triste evidência do que a intolerância religiosa e a xenofobia podem causar à sociedade. A onda de supremacismo nacionalista que cresce no mundo todo – e assusta imigrantes e refugiados – atingiu até mesmo um dos países mais democráticos e pacíficos do mundo, que em 2017 teve apenas 35 homicídios.

O assassino, um australiano de 28 anos, usava trajes militares, capacete e colete à prova de balas. Ele transmitiu tudo pela internet e depois publicou uma mensagem chamando os imigrantes de “invasores”. Já havia publicado um manifesto de 74 páginas numa rede social, no qual elenca líderes racistas norte-americanos como seus heróis. No mesmo material, dizia também que suas motivações incluíam “criar uma atmosfera de medo” e incitar a violência contra muçulmanos.

É muito triste para nós – filhos, filhas e demais descendentes de refugiados árabes, muçulmanos e cristãos – ter de justificar, a cada nova agressão gratuita, que não somos radicais ou terroristas. Que se nós ou nossos antepassados emigraram foi por necessidade, por perseguição étnica, expropriação de terras, crimes contra a humanidade e violação dos direitos humanos. Aqueles que morreram em Christchurch eram parte dessa diáspora, cidadãos comuns, dispersos pelo mundo em busca de melhores condições de vida.

É muito triste para nós – filhos, filhas e demais descendentes de refugiados árabes, muçulmanos e cristãos – ter de justificar, a cada nova agressão gratuita, que não somos radicais ou terroristas.

Crimes bárbaros como esse são motivados pela cultura do ódio, da intolerância e da violência que vêm ganhando espaço nos últimos anos, inclusive no Brasil. Guardadas as especificidades, são os mesmos gatilhos da tragédia em Suzano, no interior paulista. Os assassinos são paladinos farsantes, covardes, que não suportam diferenças e alianças afetivas. São também resultado de uma simplificação grosseira da história e das relações humanas, em que o diálogo e a conciliação valem menos do que ofensas, ataques e mentiras.

Pode parecer utópico falar em paz em um momento como esse. Mas falemos. Assim como não podemos normatizar massacres como os de Suzano e o da Nova Zelândia, não podemos nos calar frente às injustiças contra o povo palestino. De acordo com a ONU, em 2018, 180 pessoas foram mortas pelo exército israelense durante a “Grande Marcha do Retorno”, a imensa maioria civis. Foram registrados ainda outros 265 casos em que israelenses mataram, feriram ou danificaram propriedades palestinas para expandirem suas ocupações.

Assim como não podemos normatizar massacres como os de Suzano e o da Nova Zelândia, não podemos nos calar frente às injustiças contra o povo palestino.

Nós condenamos qualquer ato de violência, mas resistir à opressão e à brutalidade é um direito de todos os povos. Nossa luta por justiça, liberdade e reconhecimento tem um único objetivo: trazer a paz para a Palestina. Acabar com uma política terrorista de Estado, que todos os dias, há décadas, viola os direitos humanos e civis mais básicos da população.

Não queremos guerra, queremos paz. Queremos união e respeito entre todos os povos e nações. Judeus, muçulmanos, cristãos e evangélicos, adeptos de todas as religiões. Na Nova Zelândia, no Brasil, na Palestina e em Israel. Paz.