(Da Folha de S. Paulo, em 11.dez.2017)

Por Ualid Rabah.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ao unilateral e ilegalmente dar a Israel como sua capital Jerusalém, uma cidade em que não nasceu nem sequer um de seus descendentes, nada mais fez do que dar seguimento ao apoio que o Estado que hoje preside sempre deu a apenas um dos lados, o israelense.

Afinal, sem a pressão dos EUA sobre a ONU, a Palestina não teria sido objeto de partilha por estrangeiros, em 1947, ao arrepio de sua população originária e milenária e para ser dada a estrangeiros que foram perseguidos e massacrados por ocidentais, na Europa basicamente, jamais em terras palestinas.

E foi graças aos EUA, também, que perto de 60% da população palestina foi expulsa ou morta em 1948, dando lugar ao que viria a ser Israel sobre os escombros e cadáveres dos que se tornaram refugiados, em 78% da Palestina histórica, muito mais do que a chamada partilha já lhe dava —em clara injustiça, posto que mesmo sendo menos de 1/3 da população de então, lhe eram concedidos 56% do território, enquanto que aos palestinos apenas 43%, restando o 1% para Jerusalém como área internacionalizada.

Foram recursos arrecadados nos EUA que permitiram a aquisição de armas e munições utilizadas para a expulsão em massa dos palestinos, bem como para guerras posteriores, além da ocupação.

Enfim, o apoio desmedido dos EUA, inclusive na forma de ajuda anual direta de bilhões de dólares a Israel, garante a manutenção da catástrofe palestina vigente até hoje, para não falarmos dos vetos no Conselho de Segurança, que garantiram impunidade absoluta a Israel.

Não surpreende que parta dos EUA mais um ato de agressão aos palestinos, como este de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e para esta cidade transladar sua embaixada. Em que pese esse ato irresponsável levar a assinatura de Trump, foi o Congresso dos EUA que aprovou uma lei, em 1995, com essa disposição.

Trump ofende a história, que informa da existência dos palestinos nesta Palestina de nossos dias há pelo menos 10 mil anos, tendo sido eles —por meio daqueles de quem descendem— os construtores das cidades que ali existiram, inclusive a totalidade daquelas citadas na Bíblia, dentre elas Jerusalém.

Trump ofende, também, a legalidade internacional, a começar pela resolução 181, a da partilha, que dedica quase 30% de seu corpo a Jerusalém. Na parte 3 da resolução, a cidade é definida como corpus separatum, a ser administrada pela ONU sob regime internacional.

Nos itens B e C definem-se seus limites, hoje alterados ilegalmente por Israel, e o Estatuto da Cidade, que a define como desmilitarizada, com liberdade de trânsito e visita, com o árabe e o hebreu como seus idiomas oficiais, sendo todos os seus residentes cidadãos ipso facto.

Qualquer leigo sabe que hoje aos palestinos não é permitido livre acesso à cidade, bem como é proibido construírem ou reformarem casas ou negócios; aos judeus tudo está permitido.

Trump e Israel desobedecem ainda à resolução 478 do Conselho de Segurança da ONU, de 1980, segundo a qual a anexação de Jerusalém por Israel, a chamada Lei Básica de Jerusalém, capital de Israel, votada em 30 de julho daquele ano, não tem efeito.

Assim, a medida é anti-histórica, ilegal e imoral. Trump só faz jogar gasolina na fogueira e, com isso, desabilitar de vez os EUA do papel de mediador isento na busca da paz entre palestinos e israelenses, que leve à criação do Estado da Palestina, quando o status final de Jerusalém também será resolvido.

O presidente dos EUA parece mais interessado em ajudar Israel em sua incansável busca da “solução final” para a Palestina, que implica a expulsão de todos os palestinos, para que seus lugares sejam ocupados apenas por quem professa o judaísmo. A humanidade já conheceu as consequências de buscas supremacistas de pureza racial ou étnica.