Duca Rachid, uma das das autoras de “Órfãos da Terra”, compartilhou com a FEPAL sua visão sobre a Questão Palestina (Foto: Divulgação)

“Órfãos da Terra”, nova novela das seis da Globo, que estreia na próxima terça-feira (2), terá como pano de fundo o drama dos refugiados sírios. No centro da trama está a história de Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes), que fogem dos horrores da guerra para viver um grande amor no Brasil. Ficção criada à base de pesquisas e depoimentos, a obra de Duca Rachid e Thelma Guedes mostrará ao povo brasileiro um pouco da cultura árabe e tocará em questões críticas da atualidade, como xenofobia e racismo.

Em entrevista exclusiva para a FEPAL, uma das autoras, Duca Rachid, conta os detalhes da concepção do enredo e dos motivos que as levaram a escolher esse tema. “Esperamos ao menos que a novela ajude a derrubar o mito de que todo refugiado é foragido da justiça, marginal, sem nenhuma escolaridade, quando sabemos que, na maioria dos casos, é o contrário”, explica.

Jornalista formada pela PUC-SP, neta de um imigrante libanês de Trípoli, Duca trabalha com teledramaturgia desde o final dos anos 1980. “Meu sonho sempre foi escrever novelas”, diz. Inspirada inicialmente por “Gabriela” (1975), a autora construiu uma carreira de sucesso na televisão, com títulos como “Tocaia Grande” (1995), da extinta TV Manchete, “O Cravo e a Rosa” (2000), “O Profeta” (2006) e “Cordel Encantado” (2011) – essas duas últimas também fruto da parceria com Thelma Guedes.

Na Globo desde 1999, Duca considera-se uma “humanista e pacifista”. Ela classifica a guerra civil na Síria como “uma das maiores tragédias da humanidade”, critica as ondas conservadoras que perseguem imigrantes e “a política beligerante” do Estado de Israel. Revela ainda todo o seu apoio à causa palestina. “No momento em que respondo a essa entrevista, a imprensa noticia mais um ataque impiedoso à Gaza”.

Confira:

Você é neta de um imigrante libanês. Qual é a sua ligação com o mundo árabe hoje em dia? Sua família preserva algumas das tradições, como culinária, língua, crenças, religião? Costumam visitar a região?

Nós não temos mais parentes no Oriente Médio. Ao menos, não que eu saiba. E também nunca fui à Síria ou ao Líbano. Tenho muita vontade de ir agora, depois da novela. Espero que até lá a guerra tenha acabado. Ao menos, o Líbano, à Cisjordânia, à Palestina, gostaria de ir. Queria muito conhecer Belém.

A cultura árabe é muito presente na nossa família. Nossas festas são regadas a comidas, música e danças árabes e eu, apesar de ter uma formação cristã, batizei minha filha na igreja Ortodoxa e tenho um compadre muçulmano. Aprecio demais os poetas persas, em especial o Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rumi, a música da Fairuz e do Mashou Leila e o cinema da Nadine Labaki, que me inspira pessoalmente.

O pano de fundo de “Órfãos da Terra” é a guerra civil na Síria. Para além do romance entre os protagonistas – Laila e Jamil –, como vocês procuraram representar o aspecto humanitário desse drama dos refugiados?

Novela é folhetim, tem sobretudo a função de entreter. A guerra da Síria é o pano de fundo de uma linda história de amor, baseada no mito de Tristão de Isolda. Temos essa limitação de estar fazendo ficção para um público de novela das seis, mas procuramos retratar a guerra e suas consequências nefastas da forma mais realista possível. A linguagem da nossa novela, quando fala de guerra, é muito próxima ao documental. Na primeira semana, retratamos o drama de uma família síria que tem sua casa destruída num bombardeio e realiza uma verdadeira diáspora, atravessando grande parte do país a pé para chegar à fronteira com o Líbano. Em seguida, se estabelece num campo de refugiados e até sobrevive a um naufrágio para conseguir atravessar o Mediterrâneo em direção à Grécia, apanhar um navio para chegar ao Brasil e ser acolhida por familiares.

Vamos tratar, na ficção, de toda a dificuldade de um refugiado em conseguir se adaptar a essa nova realidade, nova cultura, conseguir emprego e uma vida digna.

Vamos tratar, na ficção, de toda a dificuldade de um refugiado em conseguir se adaptar a essa nova realidade, nova cultura, conseguir emprego e uma vida digna. Estamos empenhadas em conseguir descrever essa realidade da maneira mais honesta possível, dentro das limitações do folhetim e de uma novela das seis, em honra a todos os refugiados que conhecemos durante a pesquisa para a novela e suas histórias de uma incrível resiliência. Em honra ao meu avô Miguel e também aos meus avós Maria do Carmo e Joaquim, que também imigraram de Portugal em busca de sobrevivência. Em honra aos pais nordestinos da Thelma que migraram para o Rio de Janeiro, Maria Lucy e Arlindo.

E por que você e a sua parceira nessa produção, a Thelma Guedes, decidiram abordar esse tema?

Porque o refúgio é e será por muito tempo a questão deste século. Como foi no final do século 19 e no início do século 20 a imigração. O relatório anual Tendências Globais da ACNUR dá conta de que o número de refugiados vem crescendo aceleradamente de 2013 a 2107, em proporção de 4,3% ao ano.  Em 2018, 1 bilhão de pessoas estavam em trânsito, entre migrantes e refugiados. Desses, 6,3 milhões são sírios, de acordo com o último relatório geral, divulgado em junho de 2018, ou 1/3 da população refugiada internacional do mundo.

Em 2018, 1 bilhão de pessoas estavam em trânsito, entre migrantes e refugiados. Desses, 6,3 milhões são sírios, de acordo com o último relatório geral, divulgado em junho de 2018, ou 1/3 da população refugiada internacional do mundo.

Além desses dados estatísticos, as histórias de refúgio nos comoveram demais. Somos descendentes de imigrantes. A Thelma também tem pais migrantes nordestinos. E, do ponto de vista da dramaturgia, as histórias de refúgio carregam um potencial dramático semelhante àquele que geraram grandes novelas como ‘Os imigrantes’ e ‘Terra Nostra’.

O assunto nos toca pessoalmente, e esperamos ao menos que a novela ajude a derrubar o mito de que todo refugiado é foragido da justiça, marginal, sem nenhuma escolaridade, quando sabemos que, na maioria dos casos, é o contrário: há gente muito preparada, resiliente e empreendedora, que deixou o seu país por absoluta falta de opção, para salvar a própria vida.

Os números da guerra na Síria são assustadores. Calcula-se mais de 220 mil mortos, 7,6 milhões de pessoas em deslocamento interno e um contingente – segundo a ONU – de 13,5 milhões pessoas que necessitam de ajuda humanitária. Desde que os conflitos iniciaram, em 2011, rodaram o mundo imagens chocantes das péssimas condições de deslocamento dos refugiados. O intenso fluxo migratório gerou uma série de conflitos também, como o fechamento de fronteiras e o aumento da xenofobia em vários pontos do mundo, especialmente na Europa. Como você, particularmente, avalia esse movimento migratório e as suas consequências?

Sem dúvida nenhuma estamos assistindo a uma das maiores tragédias da humanidade, na minha opinião. E, além da consequência mais terrível, que são as perdas humanas, essa percepção distorcida em relação ao imigrante/refugiado/deslocado aumenta os casos de violência, preconceito, xenofobia e abre espaço para regimes nacionalistas e conservadores. Esses regimes crescem sobre o mito de que as migrações prejudicam a economia do país, quando é exatamente o contrário. Em economias avançadas, cada aumento de 1% na população adulta migrante corresponde a um aumento de até 2% no PIB per capita.  Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que as contribuições feitas pela população migrante em impostos são muito maiores que os benefícios recebidos. No Brasil, estudo do IPEA conclui que sem a contribuição dos imigrantes não ibéricos desembarcados aqui em fins de XIX e XX, a renda per capita brasileira seria até 17 % menor que a atual. Além disso, apesar da percepção em contrário, nós exportamos mais gente do que recebemos. Recebemos cerca de 130 mil imigrantes e refugiados ao ano e já “exportamos” 4 milhões de brasileiros para o exterior.

No Brasil, estudo do IPEA conclui que sem a contribuição dos imigrantes não ibéricos desembarcados aqui em fins de XIX e XX, a renda per capita brasileira seria até 17 % menor que a atual.

Você, brasileira descendente de um imigrante árabe, já sentiu algum tipo de preconceito por causa das suas origens?

Já passei pelo constrangimento de ser chamada de “terrorista” sim e demorar um pouco mais para entrar em Miami. Mas isso só aconteceu uma vez.

De que forma vocês procuram representar essa relação entre brasileiros e imigrantes na novela?

Temos uma personagem síria, Missade, que terá mais dificuldade em se adaptar e sofrerá com ataques xenofóbicos. Outro refugiado, Faruq, é um renomado cirurgião na Síria, mas aqui terá muita dificuldade em revalidar seu diploma. Temos também dois personagens, uma congolesa e um haitiano, que conhecerão, aqui no Brasil, o horror do racismo.

Você considera o povo brasileiro receptivo?

Nosso país é formado por imigrantes e é um dos que têm uma das legislações mais elogiadas do mundo para o trato de imigrantes e refugiados. E a lei mais recente reconhece os apátridas. O brasileiro tem a receptividade ao imigrante no DNA, porque somos formados por diversos povos ibéricos e não-ibéricos. Hoje, com essa onda de ódio em todo mundo, vemos atitudes, em alguns lugares do país, que me preocupam, mas não perco a esperança em nosso povo.

Por trabalhar com representações da realidade, a dramaturgia e a ficção, no geral, sempre correm o risco de reproduzir estereótipos. Que tipo de cuidados vocês tomaram para que o enredo e os personagens de Órfãos da Terra sejam os mais féis possíveis à cultura árabe e à própria tradição islâmica?

Estamos tomando todo cuidado pra não cair em estereótipos. Para tanto, contamos com a valiosa assessoria do professor da USP e tradutor de “Mil e Uma Noites”, Mamede Jarouche, no que diz respeito à cultura, tradição e língua árabe. Mas é importante sempre lembrar que novelas são obras de ficção, sem o compromisso de retratar fielmente a realidade.

Que traços da cultura vocês procuram apresentar na novela?

A música, a culinária, o comportamento, as crenças, entre outros.

O personagem Mamede, interpretado por Flávio Migliaccio, é um palestino que se mudou para o Brasil nos anos 90. É também ele um “órfão da terra”, portanto. Conte-nos um pouco mais sobre ele?

Mamede é um palestino que se refugiou no Brasil com a filha e com o genro, depois de ter suas terras ocupadas por Israel. Seus netos nasceram aqui, ele está perfeitamente adaptado à nossa cultura, mas ainda guarda as chaves de sua casa e uma grande mágoa por ter sido expulso do seu país. Mamede tem dois netos brasileiros, Ali e Muna, que ele criou, depois que os pais deles morreram num acidente de carro. Ele terá um conflito com seu vizinho judeu, Bóris, a princípio por causa da cachorra Salomé, que “seduz” seu cachorro Sultão. E depois porque seu neto Ali se apaixona pela neta de Bóris, Sara. Nossa ideia é chamar a atenção do público para o conflito árabe-israelense, principalmente, através do humor. Os mais velhos serão beligerantes até aprenderem a se respeitar e conviver em harmonia. E, para isso, vão contar com a ajuda dos netos, Ali e Sara, que se apaixonam, apesar das diferenças, e defendem uma solução de paz e respeito entre os dois povos. Bóris também irá se convencer de que a solução pacífica e o respeito aos direitos dos palestinos é a melhor saída, depois de sofrer uma grande perda no conflito.

Flávio Migliaccio será Mamede, um palestino que se mudou para o Brasil no anos 90 (Foto: Isabella Pinheiro/Gshow)

Qual é a sua visão sobre a Questão Palestina?

Como humanista e pacifista, minha posição pessoal é francamente contra a ocupação militar da Palestina, contra as ações beligerantes do Estado de Israel, mas a favor do povo judeu, que – tenho certeza – se bate contra o estado militar. Desde 2006, 29 resoluções contra Israel foram colocadas à votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Agora mesmo, dia 22 de março, tivemos mais uma resolução contra Israel. Ela permite uma investigação para condenar Israel porque seus soldados atiraram sobre manifestantes desarmados, matando pelo menos 189 palestinos em 2018. Mais de 6 mil palestinos ainda ficaram feridos em confrontos com forças de Israel, entre março e dezembro de 2018. São violações de direitos humanos e de direito humanitário, e algumas das violações podem constituir crimes de guerra ou crimes contra a humanidade.

Como humanista e pacifista, minha posição pessoal é francamente contra a ocupação militar da Palestina, contra as ações beligerantes do Estado de Israel, mas a favor do povo judeu, que – tenho certeza – se bate contra o estado militar.

Infelizmente, como disse antes, o Brasil foi um dos únicos 8 países a votar a favor de Israel e o fez pela primeira vez.  Em todas as outras oportunidades, votou pela condenação de Israel. A política beligerante do Estado de Israel contra palestinos criou a maior diáspora atual. Cerca de 8,15 milhões de palestinos vivem fora do país (aproximadamente 60 mil no Brasil) contra 4.9 milhões que vivem na Cisjordânia (2.7 mi) e em Gaza (1.9 mi). Os relatórios da ONU, Anistia Internacional e ACNUR são verdadeiramente acachapantes. O ACNUR estima que os palestinos representam até 1/3 dos refugiados internacionais no mundo, mesmo considerando as hecatombes da Síria e Congo, por exemplo. A Anistia coleciona crimes de guerra como o assassinato de 1.460 civis apenas nos poucos dias do conflito de 2014; política de expulsão da população de beduínos da região de Negev/Naqab; a prisão e expulsão de refugiados da Eritréia e Sudão (apenas em 2016 cerca de 3.250 pessoas foram vitimadas nessas ações).

Ainda em 2016, as autoridades israelenses demoliram 1.089 residências na Cisjordânia e outras tantas em Gaza e em Israel.  As “Forças de Defesa de Israel” praticam execuções extrajudiciais inclusive contra adolescentes palestinos. Prendem crianças e submetem presos a tortura. O uso excessivo da força é a regra, e não há liberdade de expressão, manifestação e associação, inclusive há restrições até para cidadãos israelenses. O bloqueio militar por terra, mar e ar da faixa de Gaza entrou no seu 13º ano consecutivo, agravado pelo Egito que também fechou a fronteira de Gaza.  Até pacientes e médicos têm sua passagem pelas fronteiras atrasadas ou negadas. O Estado de Israel condena os palestinos à punição coletiva. No momento em que respondo a essa entrevista a imprensa noticia mais um ataque impiedoso à Gaza.

As “Forças de Defesa de Israel” praticam execuções extrajudiciais inclusive contra adolescentes palestinos. Prendem crianças e submetem presos a tortura. O uso excessivo da força é a regra, e não há liberdade de expressão, manifestação e associação, inclusive há restrições até para cidadãos israelenses

Além de apoiar moralmente os palestinos e receber os refugiados desse país da melhor maneira possível, devemos também apoiar e reforçar os muitos movimentos dos judeus pela paz. Grande parte da população de Israel e da comunidade judaica internacional é contra a ocupação. Ano após ano recebemos as denúncias da prisão de dezenas de opositores conscientes israelitas. Ainda agora em março de 2019, dezenas de milhares foram às ruas exigindo a renúncia do governo de direita de Benjamin Netanyahu. Essas grandes manifestações se repetem há anos. São muitas as organizações populares em Israel pela paz, incluindo de militares e ex-combatentes. É preciso apoiá-los. O mais conhecido escritor israelense, Amós Oz, explicava que não é necessário que você ame seu vizinho, é necessário você amar a paz. Construir a paz.

Precisamos disso: respeitar as diferenças, e construir a paz. Na guerra, não há vencedores. Só vencidos.