Por Ualid Rabah, diretor de Relações Institucionais da FEPAL 

No exato 9 de abril de 1948, pouco mais de um mês antes de Israel se autoproclamar estado sobre terras palestinas roubadas (os “judeus” detinham menos de 6% da terra na Palestina), o que veio a ser Israel já anunciava ao mundo o que faria e como o faria assim que pudesse ou resolvesse agir na implementação do projeto sionista originário e único àquela altura. Mas o mundo não compreendeu a mensagem dada ou a subestimou, no que foi um dos maiores erros da história e o maior do pós-guerra (segunda).

Era um dia como outro qualquer no pequeno povoado palestino de Deir Yassin, habitado por cerca de 700 camponeses desarmados que viviam de suas criações e lavoras, além do trabalho nas minas de calcário e da extração de pedras, e localizado às portas de Jerusalém (hoje, sobre suas ruínas, está o bairro judeu de Har Nof). A maior parte dos homens estava fora da aldeia, espalhada nas plantações e pastagens, nas minas e nas pedreiras. No pequeno núcleo urbano estavam as mulheres e crianças, os velhos e inválidos.

Não havia amanhecido ainda quando um grupo de 120 homens fortemente armados, todos estrangeiros recém-chegados à Palestina ocupada pelos britânicos, todos de fé judaica e integrantes dos grupos terroristas Irgun e Lehi (depois vieram a compor o que hoje se denomina Exército de Israel), ingressam nas cercanias da aldeia. Às 11 horas dão início à matança metodicamente planejada e executada. Não havia nada que justificasse, sob qualquer ponto de vista militar ou estratégico, o ataque e a matança indiscriminada e massiva de camponeses desarmados, que nunca tomaram parte de nenhuma atividade armada, ou mesmo de alguma forma mais organizada de resistência à ocupação da Palestina.

Estimam-se em até 300 os mortos naquele dia de orgia assassina. Mulheres grávidas e crianças não foram poupadas. Além do morticínio impiedoso, as monstruosidades ultrapassaram todos os limites. Perto de 250 sobreviventes foram levados em caminhões até Jerusalém, local onde parte ficou e outra foi levada até Telavive, hoje a capital de Israel, e mostradas ao público em desfile pelas ruas da cidade. Também cabeças arrancadas de dezenas de assassinados foram exibidas neste desfile. E mais: suas fotos foram estampadas em panfletos distribuídas pelos terroristas judeus por toda a Palestina, a chacina foi comunicada em massa por meio de serviços de alto falantes volantes e por transmissões radiofônicas. Tinha início o que era prometido desde muito antes, mas jamais acreditado pelos palestinos: a LIMPEZA ÉTNICA, ou a SOLUÇÃO FINAL para a Palestina, lugar auto reservado aos invasores.

Mas o que significou este massacre? Por qual razão os sionistas o promoveram? As respostas só têm sentido se entendermos o objetivo máximo dos sionistas para a Palestina: sua faxina étnica. Além do objetivo em si, Deir Yassin pode ser encarada como o grande teste, o ensaio geral do que seria (e foi) feito em toda a Palestina, em uma escala jamais vista. Além do mais, Deir Yassin estava às portas de Jerusalém, almejada pelos sionistas, inclusive sem palestinos, o que também se deu em sua parcela conquistada após 15 de maio de 1948, a chamada parte “ocidental” desta milenar (5 mil anos) cidade palestina.

Após este evento trágico e após o 15 de maio no qual Israel se autoproclamou estado sobre terras Palestinas, o inimaginável, porém anunciado com Deir Yassin, se deu: 774 cidades e povoados palestinos foram ocupados, dos quais 531 totalmente destruídos; 70 massacres foram cometidos, com mais de 15 mil mortos, incontáveis feridos e mutilados e dois terços da população originária, a palestina, expulsa pelos estrangeiros recém-chegados.

Foi com a chacina de Deir Yassin que os sionistas deram início a um dos quatro planos deles para a Palestina, o D (ou Dalet, como fora denominado no hebraico por seus elaboradores e executores), que consistia, conforme palavras de David Ben-Gurion, primeiro presidente de Israel, em sua biografia, na desestabilização da Palestina pela limpeza étnica.  “Eu sou pela transferência compulsória. Não vejo nada de imoral nisso”, disse ele. Era, na verdade, o cumprimento da promessa feita pelo movimento nacional judaico, quando nascido na Europa, resumido na frase “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Se a terra era povoada, com densidade populacional superior à da maioria dos estados europeus de então , é mais do que evidente que isto não era um diagnóstico, mas uma promessa, um projeto a ser executado. Ou seja: a Palestina tinha povo mas seria feita sem povo.

Em suma, é a partir de Deir Yassin que foram tomados, pela força, pelo terror, pelas matanças e pela expulsão 78% do território da Palestina histórica e desta parcela de território, dos seus 900 mil habitantes, perto de 800 mil foram mortos ou expulsos, quase 90%. Isso jamais foi presenciado ou documentado na história humana. É esta a razão de se denominar estes eventos como NAKBA, como CATÁSTROFE.

 

A limpeza étnica no Oriente Médio hoje e a “solução final”

 

Apenas recordar de Deir Yassin não é o suficiente. É preciso, à luz deste primeiro massacre e do que a ele seguiu, encontrar os elementos que nos informem de um modelo, de um precedente em curso hoje em todo o Oriente Médio, especialmente nos países limítrofes à Palestina, notadamente aqueles do chamado Levante, em que reside a maior parte dos refugiados expulsos em 1948 e 1967.

Nossa situação enquanto palestinos, atualmente, seja na pátria mãe, seja nas diásporas, seja nos países vizinhos nos quais vivemos como refugiados (e não apenas em termos técnicos, isto é, sob o estatuto consoante ao direito internacional, mas também na prática) é, talvez, a mais grave da história. Dizemos isso não para comparações que levem à minimização, por exemplo, da catástrofe em 1948 (de finais de 47 a início de 49), mas considerando que o momento atual é de definições quanto ao triunfo final do anglosionismo em escala global e, de consequência, da realização de uma espécie de Sykes-Picot 2, isto é, a consecução do que se convenciona chamar GRANDE ISRAEL. As atuais guerras promovidas a partir de fora no chamado LEVANTE (Iraque e Síria e Líbano sendo testado ao máximo para ser arrastado ao caos), área principal e, em princípio, primeira de realização deste projeto, são evidência mais que solar disto e os palestinos aí residentes são suas primeiras vítimas.

Temos, ainda, as iniciativas patrocinadas pelos EUA, que vão do reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel à recusa na implementação da Resolução 194 da ONU para o retorno dos refugiados, passando pelo reconhecimento da anexação, por Israel, do Golã ocupado sírio, em clara aprovação da conquista de territórios pela guerra, inclusive para novas aquisições.

É que, resumidamente falando, acabamos sendo, ainda que numericamente pouco significativos, os entraves à plena realização dos planos de antes do término da 1ª Guerra “Mundial”, e mesmo de antes da sua eclosão, já que a infiltração francesa e britânica na região, mais visível no Egito e norte da África, mas também no Irã, remonta à segunda metade do século 19. Acabamos reagindo ao mandato britânico desde seu início, reclamando que a independência deveria ser concedida a todos os povos árabes, conforme acordado na correspondência Hussein/MacMahon, que se estendeu de meados de 1915 aos primeiros meses de 1916, que equivalem a um tratado, por isso a afirmada traição a ele pelo chamado acordo secreto de Sykes-Picot.

E, mais uma vez resumidamente, não aceitamos a recomendação da partilha (importante: recomendação foi o que a Resolução 181 da ONU deliberou, inclusive passível de alterações, conforme o relatório que levava à mesma ONU seu enviado especial, Conde Folke Bernadote, assassinado em 17 de setembro de 1948 pelo grupo terrorista sionista Lehi, no qual caracterizou a partilha da Palestina como “um plano desastroso”), bem como reagimos à autoproclamação (mais uma vez: não houve “criação” de um estado pela ONU, mas autoproclamação, unilateralidade sionista, baseada em seus primados de limpeza étnica lançados ainda na Europa e pelo menos 70 ou 80 anos antes) de Israel, depois o início de uma resistência, depois a tomada dela em nossas mãos unicamente (OLP, a partir da chegada de Yasser Arafat à sua presidência, já na metade dos 1960), em seguida a talvez mais emblemática batalha da resistência palestina contra Israel (Batalha de Al Karama, em 21 de março de 1968, isto é, há exatos 50 anos), à qual se seguiu o massacre desta resistência e sua realocação para o Líbano, a invasão deste país (aprofundamento da mesma para além dos limites do Rio Litani) em 1982 etc. Chegamos até os dias de hoje sem termos permitido que a máxima de Ben Gurion, feita famosa na dicção da assassina Golda Meir, segundo a qual “seus pais morrerão e eles (os filhos) esquecerão”, se realizasse.

Enfim, nos tornamos o maior problema imediato à implementação do sonho sionista de ter um território que tivesse limites do Egito (tomando o Sinai e quase toda a margem oriental do Nilo, até perto da fronteira com o Sudão, senão mesmo até esta fronteira) à Turquia (tomando de pequena faixa a 1/3, e mesmo perto de 3/4, a depender de qual dos três mapas imaginados pelos sionistas, dois dos quais – os mais amplos – são pouquíssimo conhecidos), passando pelo Líbano (tomada integral), Jordânia (tomada integral), Síria e Iraque (tomadas quase integrais), Arábia Saudita (perde perto de 20%), Kuwait (perde pequena fração). E, mais, ficamos, enquanto refugiados, literalmente cercando Israel, a partir do Líbano, da Jordânia, do Egito (e Gaza), e da Síria, além das nossas presenças no Iraque e noutros países da região, sem nunca abandonarmos nossas condições de palestinos, estatutariamente refugiados ou não. Em outras palavras: permanecemos como a ESPADA DE DÂMOCLES atual frente a Israel, ou seja, conclamando e dando concretude real ao DIREITO DE RETORNO, o verdadeiro e maior pesadelo israelense e sionista.

Isso sem contar o cerco “interno”, considerando os palestinos que seguem em sua terra milenarmente ancestral. São hoje 5 milhões entre Gaza e Cisjordânia. Outros perto de 1,6 milhão, talvez mais, vivem na Palestina tomada em 1948 e tornada Israel. Ou seja: na Palestina histórica vivem, hoje, perto de 7 milhões de palestinos, nas condições ou de ocupados ou de cidadãos de segunda classe. Isto nos leva a duas máximas para a Palestina atual: a de que Israel é o MAIOR GUETO da história (os guetos foram escolhas de judeus que queriam se isolar dos não judeus) e a Palestina o maior CAMPO DE CONCENTRAÇÃO e idealizado e construído por aqueles que reclamam os crimes europeus em solo europeu.

Essa problemática, de construção do GRANDE ISRAEL, precisa, na ótica sionista, de uma nova LIMPZA ÉTNICA, desta vez atingindo os palestinos refugiados nos países que os alojam. Seus campos de refugiados precisam ser dizimados, seus moradores espalhados pelo mundo e assim mantidos até que percam a condição de refugiados, isto se dando, num primeiro momento, com as estabilizações destes nos países longínquos para onde foram (Brasil, por exemplo), e num segundo momento com a perda da condição estatutária de refugiados (o que Trump já anunciou, inclusive com corte de ajuda humanitária à agência da ONU encarregada destes refugiados), o que lhes retirará tanto o DIREITO DE RETORNO quanto o concomitante direito a compensações econômicas e morais.

À luz disso podemos lançar luzes para a melhor compreensão do que se dá no Iraque, com mais intensidade a partir de 2003, quando os palestinos estiveram entre os grupos mais afetados. Foram cassados, mortos, expulsos. Nossos principais intelectuais e cientistas neste país eram misteriosamente assassinados por franco-atiradores, explosões e pelas vias de outros “incidentes”, o que os levou à fuga, de um lado, e à expulsão por oura (parte veio para o Brasil em 2007).

Podemos dizer que isto foi iniciado no Líbano, com ênfase para 1982, isto é, os banhos de sangue nos campos de Sabra e Chatila. Foi no Líbano, também, que tivemos o início de um novo experimento, o de Naher el Bared, quanto lá apareceu um grupo autoproclamado Fateh Al Islam. Era a senha para o que estavam planejando para todos os demais campos de refugiados, hoje em dia visível, embora sem que haja uma discussão pública mais aprofundada a respeito, na Síria. Aí vemos o que se deu com Yarmouk, eventos que dispensam maiores comentários. Suas consequências são a dizimação e a dispersão destes refugiados, alguns dos quais encontram-se no Brasil.

Importante notar que tanto em Sabra e Chatila quanto agora na Síria, Yarmouk em especial, se aplica o mesmo modelo da LIMPEZA ÉTNICA na Palestina, de décadas antes: máxima barbárie nas execuções, máxima divulgação destas e, de consequência, máximo pavor e fuga daí decorrente. Em seguida se destrói tudo, se coloca outra gente no lugar, se impede o retorno. Na Síria, por exemplo, as execuções tiveram barbárie aterradora, esta foi divulgada ao máximo pelas redes sociais, bem como maximizada pelos grandes veículos ocidentais, dando-se a fuga destes e estrangeiros supostamente “islâmicos” buscaram se instalar em seus lugares. Outro detalhe curioso: tal qual em Sabra e Chatila, as matanças não são protagonizadas diretamente pelos israelenses, mas por agentes outros. No Líbano foram falangistas autoproclamados “cristãos”, identificados como os remanescentes do fascismo neste país, e na Síria foramforças ultra fanáticas autoproclamadas “islâmicas”, em boa medida estrangeiras.

E o que vemos é a expansão de Israel, conforme seu projeto originário, realizando no caminho o seguimento da LIMPEZA ÉTNICA dos indesejados (porque perigosos e mantidos em sua palestinidade) palestinos. Há muitos agentes colaborando com o anglosionismo neste processo, tanto da região quanto de fora dela. Os da região, eles mesmos filhos de Sykes-Picot tanto quanto Israel, deram a senha para a realização da LIMPEZA ÉTNICA dos palestinos no Iraque, na Síria, no Líbano, bem como é graças à luz verdade destes mesmos que o EXPERIMENTO de ocupação à distância se realiza sem oposição em GAZA. Aliás, o cerco a Gaza não é para que os palestinos não saiam (impedimento do livre ir e vir), mas para que saiam, após a exaustão da vida pré-histórica a que estão submetidos, sem retorno, dadas as condições de inabitabilidade a que a faixa está sendo levada e, claro, à normalização que estes auto-exilados encontrarão nos país que os acolherem. Para que o segundo elemento desta equação se concretize, isto é, o não retorno pela normalização em países distantes, Gaza precisa seguir sob cerco e asfixia. E, obviamente, o seguimento deste quadro leva a mais e mais auto-exílios, cada vez mais frequentes, tamanho o desespero desta população, especialmente a jovem.

Os agentes regionais agem em favor de seus interesses, já que eles mesmos são, em boa medida, parte integrante do anglosionismo, de que Israel igualmente é. E nós, os palestinos, atrapalhamos a consecução destes interesses, desta realização de planos. Importante destacar que são exatamente estes agentes regionais os que financiam esta reconfiguração do Oriente Médio em benefício do Grande Israel. E são, estes agentes, justamente as criações mais aberrantes de Sykes-Picot e que, coincidentemente, não têm perdas territoriais para este projeto expansionista (Kuwait tem perda mínima, e pode resolvê-la, e Arábia Saudita constrói posição dominante que lhe permita ser player e, ao contrário de perder, ganhar território, enquanto que Qatar e Emirados Árabes Unidos não figuram em planos de desaparição ou de perdas territoriais).

E, mais uma vez não por mera coincidência, são estes agentes regionais que, com seus dinheiros e influência no OM atual e em frangalhos, estimulam as DIVISÕES entre nós palestinos, seja enquanto povo, seja enquanto forças da resistência, já que as resistências contam com mais de uma facção (no mínimo) cada e alojadas em algumas destas capitais regionais. Seus objetivos são claros e neles não há sequer um mapa reduzido da Palestina.

Por fim, há o papel da Turquia, que responde com política de expansão frente a Sykes-Picot 2. Bom lembrar que a Turquia foi o primeiro país de maioria muçulmana a RECONHECER ISRAEL, em março de 1949, antes mesmo de seu ingresso formal na ONU, que só se deu em 11 de maio de 1949, única admissão de estado membro sob cláusula condicionante, a de cumprimento e implementação da Resolução 194, que determina o direito ao retorno dos refugiados e compensações, vale dizer, que impõe a Israel o desfazimento da LIMPEZA ÉTNICA. A Resolução nunca foi respeitada, com Israel, ao contrário, dandonseguimento às expulsões, às novas anexações pela força, a toda sorte de atos e legislações privativas de direitos, terras, recursos e movimentos aos palestinos.

Diante disso, cumpre aos palestinos muita responsabilidade nestes dias, lá e cá. Nós, desta diáspora palestino-brasileira, temos duas responsabilidades das quais não podemos fugir. Primeiro, não aceitar que este jogo regional coloque sua cunha em nosso meio e, com isso, virmos a reproduzir a política fratricida hoje reinante na Palestina e ainda não superada pela almejada unidade, ou governo de união nacional. Segundo, temos que aqui produzir outro tido de palestinidade e, por meio dela e de seu exemplo, auxiliar a que nossos irmãos encontrem um caminho de unidade fraternal na pátria mãe, a Palestina. Se este for nosso compromisso, estamos no melhor caminho. Se não for, a palestinidade corre sério risco, cá e lá, com a queda de Jerusalém como o mais visível prenúncio disso, para além da LIMPEZA ÉTNICA que afeta aos palestinos em todo o Oriente Médio.

Estamos diante do limiar de uma solução final para a Palestina, não apenas na pátria mãe, mas em toda a região. E não nos espantemos se ocorrerem em outras partes do mundo repressões a nós e nossas instituições por proclamarmos nossa palestinidade e defendermos nossa causa nacional. E tudo isso começou no dia 9 de abril de 1948, na pequena Deir Yassin, que viveu por séculos, senão milênios, resistindo a todas as dezenas de ocupações que viu partirem da Palestina, mas sem jamais ter sido riscada do mapa, somente vindo isto a acontecer sob a ocupação sionista.