Maria Angela Holguín Cuéllar

A Colômbia, país atualmente mais alinhado com as políticas dos EUA para o continente, bem como considerado um dos mais importantes parceiros de Israel na América do Sul, acaba de anunciar seu reconhecimento à Palestina como “Estado livre, independente e soberano”. A comunicação oficial, assinada pela ministra de Relações Exteriores da Colômbia, Maria Angela Holguín Cuéllar, e encaminhada ao titular da mesma pasta pelo Estado da Palestina, ministro Riad Malki, é do último dia 3, mas somente ontem à noite tornada pública.

Na carta, lê-se que a Colômbia não tem sido indiferente ao drama palestino e que, no curso dos últimos 70 anos em que se desenvolve o conflito na Palestina ocupada, manifestou “invariável interesse”. “Nas Nações Unidas temos apoiado as resoluções que tratam sobre a Questão Palestina”, diz o documento, agregando que o país sul-americano é “consciente das dificuldades e sofrimentos que tem enfrentado a população palestina”.

Na América do Sul apenas a Colômbia não reconhecia a Palestina.

Além de reconhecer a Palestina como estado soberano e apoiar sua independência, a ministra colombiana manifestou seu desejo de ver unidade entre os palestinos. “Também reconhecemos que para a construção gradual de seu Estado a unidade da nação palestina é um imperativo e esperamos que as condições internas sigam dando-se para superar os desafios que se apresentam neste caminho”, lê-se na carta.

Ainda de acordo com a ministra colombiana, a paz no Oriente Médio é um imperativo, razão pela qual é “necessário redobrar os esforços de paz” na região, para que se resolva “em particular o longo conflito entre Israel e Palestina”.

A Embaixada Palestina na Colômbia, por sua vez, no comunidade oficial emitido ontem, afirma que a decisão colombiana conta com o profundo agradecimento do povo palestino e de seu Governo, que sempre viram a “Colômbia e seu povo como irmãos infatigáveis na busca da paz”. Além do mais, conforme enfatiza a manifestação diplomática palestina, “esta fraternidade se tem construído durante mais de um século e hoje se materializa com uma das comunidades palestinas mais numerosas de toda a América Latina”.

ONU e o mundo reconhecem Palestina

Com o reconhecimento colombiano, a Palestina passa a ser reconhecida como Estado independente e soberano por 139países. O Brasil figura entre estes países desde 2010, momento em que outros países sul-americanos, como Argentina e Uruguai, imediatamente aderiram ao reconhecimento. Atualmente, todos os países da América do Sul reconhecem a Palestina como Estado.

A ONU também reconheceu a admitiu a Palestina como Estado soberano e um de seus membros. A decisão se deu em 29 de novembro de 2012, data determinada pela Assembleia Geral das Nações Unidas como Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino. Na ocasião, apenas 9 países não admitiram a Palestina como estado-membro da ONU. Dentre estes, apenas um é da América Latina: Panamá.

Alguns dos países mais importantes do mundo reconhecem a Palestina como Estado. Dentre estes figuram Rússia e China, dois dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. França e Inglaterra, os outros dois membros do CS, além de EUA, têm se abstido na ONU quanto ao reconhecimento da Palestina, mas suas políticas exteriores tratam a Palestina como Estado de pleno direito. Suas abstenções se devem à radical manutenção do veto estadunidense, diante do qual, em virtude da aliança existente entre estes países, a neutralidade formal tem sido o caminho possível.

Importante destacar que mesmo antes do pronunciamento da ONU, já eram 116 os países que reconheciam a Palestina como Estado, isto é, 60% dos 192 então estados-membros das Nações Unidas. As adesões aumentaram após o reconhecimento pela ONU. O Vaticano foi um destes países, cujo reconhecimento tem a importância muito apreciada entre os palestinos, notadamente porque representa as vontades espirituais de centenas de milhões de católicos espalhados em todo o mundo.

Hoje, com a adesão colombiana, são 139 os países que oficialmente têm a Palestina como Estado soberano, ou seja, mais de 72%. Somados, são a esmagadora maioria (mais de 85%) da população mundial.

Para se ter uma ideia, os apenas nove países que se recusam a reconhecer a Palestina, dentre eles Israel, que é a razão mesma da tragédia palestina, e EUA, seu grande provedor, somam pouco mais de 4% da população mundial. Se retirada a população dos EUA dessa conta, os restantes países que se recusam a admitir a Palestina como estado-membro da ONU somam apenas 0,1% da população mundial. Basicamente, pode-se afirmar que a humanidade apoia a Palestina em uníssono e somente a ínfima minoria, quase insignificante, segue nesta recusa e no apoio acrítico a Israel e seus crimes na Palestina ocupada.

O Governo palestino, bem como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), única e legítima representante do povo palestino, assim reconhecida pela ONU e por todas as organizações internacionais, seguem uma estratégia que combina resistência popular pacíficacom esforços diplomáticos ativos. Parte importante nesta estratégia é o reconhecimento da Palestina pela Comunidade Internacional, impulsionada a partir do reconhecimento pela ONU.

Para além de impulsionar o reconhecimento internacional, figurar como estado-membro da ONU, ainda que com status provisório de observador, dá à Palestina a possibilidade de aderir a todos os seus organismos, que vão da Unesco(órgão para a educação e cultura, importante quando o assunto são os sítios históricos e arqueológicos na Palestina, que vêm sendo adulterados por Israel com vistas a adaptá-los à sua “história” oficial) à Interpol, passando por FMI, OMS, FAO, OIT e Conselho de Direitos Humanos da ONU, este um dos principais palcos internacionais de denúncia dos crimes cometidos por Israel.

A adesão da Colômbia, último países a fazê-lo na América do Sul, e tido por muitos como tão aliado de Israel que jamais reconheceria a Palestina, é demonstração cabal do acerto da estratégia da liderança palestina.