Depois de passar por galerias e museus, “Infânica Refugiada” será lançada em livro com 60 fotos inéditas de crianças palestinas e sírias, tiradas em campos de refugiados no Líbano, na Turquia e na Síria

Está no ar a campanha de financiamento coletivo para a publicação de “Infância Refugiada – Retratos de um Conflito” – livro de fotos que traz o olhar delicado da fotógrafa Karine Garcêz sobre a vida de crianças em campos de refugiados.

Desde 2012, a cearense percorre países do Oriente Médio e arredores registrando o deslocamento dos povos, com atenção especial às vítimas inocentes de conflitos. Seu trabalho já foi exposto em vários espaços culturais no Brasil, como o Museu da Imagem e do Som de Fortaleza (MIS-CE) e, recentemente, o Museu da Imigração/SP.

“Procuro sempre focar no olhar e na expressão das crianças, de preferência em momentos de descontração. A minha intenção é mostrar uma infância que está resistindo a todo o meio em que ela está vivendo”, explica a fotógrafa.

Fotógrafa cearense Karine Garcêz lançou campanha de financiamento coletivo para o livro "Infância Refugiada - Retratos de um Conflito"
Fotógrafa cearense Karine Garcêz pretende arrecadar R$ 25.000 para publicação e veiculação do livro

O livro bilíngue (português/inglês) – resultado de um trabalho que começou em 2014 – é uma seleção de mais ou menos 60 fotos inéditas de crianças palestinas e sírias, tiradas em campos de refugiados localizados em cidades como Beirute (Líbano), Gaziantep (Turquia) e Yarmouk (Síria).

A publicação contará com prefácio do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim e apresentação do professor de Filosofia e ex-diretor do MIS-CE, Dilmar Miranda, além de desenhos para colorir, entregues à Karine pelas crianças fotografadas.

A influência de Gaza

Nascida em Fortaleza e criada no interior do pequeno município de Redenção, Karine se aproximou do mundo árabe há cerca de 10 anos. Sem raízes familiares na região, passou a seguir o Islã depois de muita pesquisa, e também de um empurrãozinho de um casal de amigos libaneses que conheceu durante umas férias na capital cearense.

Karine começou a fotografar em 2012, com a pretensão apenas de registrar sua experiência no Hajj – peregrinação dos muçulmanos até a cidade de Meca, na Arábia Saudita. Lá, a então estudante de Relações Internacionais, recebeu da ONG Al Wafaa Campaign a oportunidade de integrar uma missão à Faixa de Gaza.

Nos 40 dias que passou na Palestina, ela conseguiu fazer algumas aulas com o premiado fotojornalista Hosam Saleh, professor da Universidade de Gaza. Isso seria determinante para o seu futuro e para a concepção do projeto “Infância Refugiada”, que iniciaria dois anos depois, na sua segunda viagem para a Síria.

A fotógrafa conta que chegou a Gaza logo após uma série de ataques de Israel. Lá, conheceu um homem que, junto com o sobrinho, tinham sido os únicos sobreviventes de uma família. Perdera no bombardeio os pais, a esposa e os filhos; sua casa estava destruída.

“Fiquei impressionada com a força daquele senhor e a forma como ele nos recebeu. Foi ele quem nos deu um alento. Percebi que isso se repete muito nas pessoas que vivem lá. Gente que tenta viver uma vida normal, estudantes que vão para a universidade e sonham com sua formação. Se eles desistirem disso, é como se estivessem desistindo de si mesmos”, relatou à FEPAL.

“Quando eu penso nos problemas que tenho, até mesmo na falta de apoio para o meu trabalho, eu lembro dessa experiência. Se gente com dificuldades muito maiores do que as minhas está conseguindo superar, por que eu não vou conseguir?”, questiona.

Conexão Sertão-Oriente Médio

Na sua concepção, “Infância Refugiada” foi também a forma que Karine encontrou para fazer a diferença. A fotógrafa reverteu todo o dinheiro arrecadado na venda do seu trabalho para a compra de material escolar para as crianças. O problema é que não foi o suficiente. Mais de 50% do valor teve de ser financiado do seu próprio bolso.

Há um outro aspecto discursivo marcante na obra de Karine: o paralelo entre o êxodo dos povos árabes e o do povo nordestino no Brasil. Procurando sempre fugir da “espetacularização midiática”, ela aproxima suas raízes da causa que escolheu lutar:

“Os motivos do deslocamento dessas famílias são diferentes, um é ambiental (a seca), o outro é por questões de conflitos e de ocupações de terra, no caso da Palestina. Mas no meio disso tudo está essa infância desprotegida, tentando viver e levar uma vida normal apesar de todas as dificuldades”, relaciona.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Karine Garcêz: